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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Opinião: O Cristo Redentor Agora é Evangélico


Donizete Rodrigues
professor de antropologia e sociologia da Universidade da Beira Interior (UBI)
Saulo Baptista
especialista em ciência política e pós-doutorando em sociologia na UBI.

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Crivella e Freixo em debate realizado pela Band no 2º turno.
Até o Cristo Redentor, símbolo do catolicismo brasileiro, do alto do morro do Corcovado, na baía de Guanabara, pode estar boquiaberto: um bispo evangélico prefeito do Rio de Janeiro? Mas esta eleição não é tão surpreendente assim, se levarmos em conta a declaração do próprio Marcelo Crivella; ele afirmou que chegara até ali com a preciosa ajuda de Luiz Inácio Lula da Silva e do “seu” Partido dos Trabalhadores (PT). Vamos tentar entender como tudo aconteceu.

Do ponto de vista histórico e político, as relações entre a cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e o PT remetem às primeiras tentativas de Lula chegar à presidência da República, nas eleições de 1989, 1994 e 1998, em que ele saiu derrotado. Nesta época, a IURD fazia uma forte oposição ao PT - por considerar este partido ‘um reduto de comunistas’- e, em particular, ao Lula, retratado como ‘um símbolo do mal’. Ou seja, o PT personificava a besta do Apocalipse e Lula era o próprio diabo em pessoa. A Folha Universal, jornal oficial desta igreja neopentecostal, colocou, como matéria de capa, a figura de Lula - comparando-o a um sapo, símbolo do mal - e afirmava que o diabo tinha quatro dedos na mão esquerda - em alusão à falta de um dedo que Lula perdeu num acidente de trabalho, quando ele era torneiro mecânico.

Esta situação conflituosa perdurou até à quarta tentativa de eleição para presidente do Brasil. Lula reuniu-se, em Brasília, com Carlos Rodrigues, o líder do braço político da IURD, que já controlava uma importante bancada de deputados evangélicos, resultando numa negociação bem sucedida para ambos os lados: atendia aos objetivos imediatos do Partido (ganhar as eleições e Lula ser presidente) e, por outro lado, reforçava a ambiciosa trajetória da Igreja nos meandros do poder político, via eleição de parlamentares, nos níveis municipal, estadual e federal, até chegar à conquista do executivo - objetivo atingido na cidade do Rio de Janeiro, nas últimas eleições do dia 30 de outubro.

A partir daí, o PT passou a ser apoiado pela IURD e pela sua poderosa máquina mediática, cuja maior expressão é a Rede Record de Televisão, segundo canal mais visto no Brasil (depois da poderosa Rede Globo) e líder de audiência em horário nobre. Agora, nos media iurdianos, o PT já não era ‘um grupo de comunistas’ nem Lula era ‘a personificação do diabo’. Assim, Lula conseguiu ser eleito, em 2002, e reeleito em 2006, em aliança com o Partido Liberal, tendo como vice presidente, o empresário e senador José Alencar (já falecido), um assíduo leitor da Bíblia e que achava que “a homossexualidade é uma forma de violência à natureza humana”.

Mas há o outro lado da moeda (de troca): o PT ajudou (e muito) na ascensão política de Marcelo Crivella, sobrinho do poderoso fundador e líder da IURD, Edir Macedo. Em 2002, Crivella foi eleito senador pelo Estado do Rio Janeiro e reeleito em 2010, com Lula na presidência do país.

Lula, com o forte apoio da IURD, conseguiu eleger Dilma Rousseff, em 2010, reeleita em 2014. E o PT agradece o apoio: em 2014, na inauguração do Templo de Salomão, em São Paulo, uma das maiores catedrais da IURD, participaram a ‘presidenta’ Dilma e o seu vice, Michel Temer, atual presidente do país. A foto mais famosa do evento é a de Dilma ao lado de Edir Macedo.

Em agosto deste ano, com o processo de impeachment de Dilma, da Presidência da República, facto aliado aos escândalos de corrupção, envolvendo o próprio Lula, o PT entra em declínio em todo o país. No eleitorado carioca, o índice de rejeição ao PT foi de quase 50% dos eleitores, o triplo das outras siglas partidárias. O PMDB, partido do impopular Presidente Temer, apresentava também altos índices de rejeição.

Crivella, outrora senador da base aliada do governo petista, já havia tentado uma eleição para governador do Rio, em 2014; na ocasião, não obteve apoio das Assembleias de Deus, outra poderosa força política evangélica no Brasil, que preferiram apoiar outros candidatos. Nesta eleição para ‘prefeito’ do Rio, porém, sem o PT e o PMDB, impopulares e enfraquecidos politicamente, o único candidato opositor no segundo turno era Marcelo Freixo, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), representando a esquerda. Marcelo Freixo ganhou o apoio da intelectualidade, dos artistas (Caetano Veloso, Chico Buarque e Wagner Moura e outros) e da classe média alta carioca, mas não conseguiu atrair os votos da população pobre, segmento social de base política da IURD; todos estes fatores históricos e políticos explicam a ascensão e vitória do bispo Marcelo Crivella à prefeitura do Rio de Janeiro.

Mas este é, apenas, um passo importantíssimo dentro de um projeto estratégico de poder da IURD, na sua marcha vitoriosa no contexto político brasileiro. E Marcelo Crivella não vai parar por aqui; ele já admitiu a possibilidade de se candidatar à Presidência do Brasil, com ou contra o seu antigo aliado Lula. Em 2018, os brasileiros poderão ter como líder máximo da nação um representante da Igreja Universal do Reino de Deus e aí o Cristo Redentor será coberto pelo manto sagrado do Espírito Santo.

SOBRE OS AUTORES

Donizete Rodrigues
Professor do Departamento de Sociologia da Universidade da Beira Interior, Portugal. Doutor em Antropologia social pela Universidade de Coimbra. Associado em Antropologia, com Agregação em Sociologia.

Saulo Baptista
Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (2007). Mestre em Ciências Sociais (Sociologia) pela Universidade Federal do Pará (2002), Graduado e Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Pará (1999), graduado em Engenharia Civil (1975), pela mesma universidade. Professor adjunto efetivo da Universidade do Estado do Pará.






quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O Sexto Sentido e a sexta-feira 13: narrativas da Igreja Universal em um programa televisivo da Rede Record em Portugal



Marco Túlio de Sousa; Donizete Rodrigues

RESUMO
Este trabalho tem como objetivo contribuir para um melhor entendimento sobre a participação da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) na mídia em Portugal e como essa denominação brasileira se relaciona com a sociedade portuguesa e com as suas especificidades religiosas. Para a análise foram selecionadas cinco edições do Sixth Sense (programa de tevê da IURD em Portugal), em que há referências à sexta-feira 13, data cheia de misticismo no catolicismo popular. Com base na teoria narrativa de Paul Ricoeur, foi realizada uma análise de conteúdo dos programas, na qual se descortinou a cosmologia dessa igreja neopentecostal: um “mundo” onde forças antagônicas, que representam o Bem e o Mal, lutam entre si para dominar/ salvar as pessoas; a magia e as religiões espiritualistas são os agentes dominadores malignos, enquanto a IURD é o agente do bem, da salvação.


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domingo, 29 de novembro de 2015

LIVRO GRATUITO: Transnacionalização Religiosa: religiões em movimento

A obra "Transnacionalização Religiosa: religiões em movimento" está disponível para download gratuito no site da editora. É só fazer um cadastro. Clique <<<aqui>>> para saber mais.
Organizadores
Donizete Rodrigues
Ari Pedro Oro
Sumário

Introdução

13 COMO A FÉ E A RELIGIÃO ESTABELECEM CONEXÕES TRANSNACIONAIS? O PENTECOSTALISMO E SEUS MODOS DE EXPANSÃO NO MUNDO GLOBALIZADO
Cleonardo Mauricio Junior, Roberta B. C. Campos

21 PENTECOSTALISMO, GLOBALIZAçÃO E CONSUMO: UMA REFLEXÃO TEóRICA SOBRE OS BENS DE MARCAÇÃO RELIGIOSA 
Daniel Alves

43 DINÂMICAS DO PENTECOSTALISMO BRASILEIRO NA EUROPA: O CASO DA IURD EM PORTUGAL, ESPANHA, IRLANDA, ITÁLIA E ALEMANHA
Donizete Rodrigues, Marcos de Araújo Silva

55 PROSPERIDADE E LIBERTAçÃO: SOBRE A CONSTRUçÃO DA IDENTIDADE EVANGÉLICA TRANSNACIONAL NOS RITUAIS ARGENTINOS DA IGREJA UNIVERSAL 
Marcelo Tadvald

79 AS IMBRICAçÕES DA IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS NA “RECONSTRUçÃO NACIONAL” DE ANGOLA: DA BENEVOLÊNCIA À ALTERIDADE MUçULMANA 
Camila A. M. Sampaio

97 IGREJA EVANGÉLICA ENCONTROS DE FÉ DE PORTO ALEGRE: SENTIDOS E EXPERIÊNCIAS DE PARTICIPAçÃO EM REDES TRANSNACIONAIS 
Mariana Reinisch Picolotto, Ari Pedro Oro

127 A IGREJA COMO PEDACINHO DO BRASIL: RELIGIÃO TRANSNACIONAL NA CAPITAL DO TEXAS 
Rodrigo Otávio Serrão Santana de Jesus, Flávia Ferreira Pires

147 O PROCESSO DE TRANSNACIONALIZAçÃO RELIGIOSA AO SUL DA AMÉRICA DO SUL: RECONSTRUINDO PERCURSOS E NARRATIVAS MÍTICAS
Mauro Meirelles

173 MINHA LÍNGUA, MINHA FÉ, MINHA IGREJA: SER CATóLICO ESTRANGEIRO DE LÍNGUA PORTUGUESA NA HOLANDA
Mísia Lins Reesink

197 MISSIONÁRIOS DO FIM DO MUNDO: MISSIONÁRIOS E MISSÕES CATóLICAS BRASILEIRAS ALÉM-FRONTEIRAS EM TEMPOS DE TRANSNACIONALIZAçÃO RELIGIOSA 
Antônio Mendes da Costa Braga

225 A “CONSTRUçÃO” DA IDENTIDADE AFRO-RELIGIOSA NA FRONTEIRA BRASIL, PERU E COLÔMBIA 
Reginaldo Conceição da Silva

247 A DESCOBERTA DE PUTAMAGAL PELO CABOCLO PENA DOURADA
Joana Bahia

265 TRANSNACIONALIZAçÃO RELIGIOSA E CONVERSÃO: UM DIÁLOGO SOBRE O BUDISMO DA SOKA GAKKAI NO BRASIL
Suzana Ramos Coutinho

291 Índice Remissivo

309 Resenhas Biográficas

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