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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Do sagrado tribal ao sagrado midiático: o televangelismo e a formação identitária religiosa



Dora Deise Stephan Moreira

RESUMO

O presente trabalho versa sobre as transformações por que passaram a relação do homem com o sagrado, desde os primórdios até os dias atuais. Na pré-história essa relação se dava, essencialmente, de forma a garantir a sobrevivência dos hominídeos, diante das intempéries da natureza. Num estágio mais avançado, houve uma intensificação dessa relação, uma vez que o homem das sociedades arcaicas passou a atribuir um sentido sagrado a tudo que estava ao seu redor, através das hierofanias. Veneravam-se deuses por intermédio de totens, extraídos do próprio meio ambiente. Com o advento das religiões de salvação, que tiveram no Cristianismo seu maior expoente, surgiu o elemento mediador entre o homem e o sagrado, representado, sobretudo, pelos profetas e sacerdotes. Por um longo tempo, as identidades religiosas possuíram um caráter mais fixo e permanente. Gradativamente, foi dando-se o processo de secularização da sociedade, fator que, dentre outros, ocasionou mudanças substanciais no campo religioso, impactando sobremaneira essas identidades. Os arautos do sagrado foram se transmutando. Com o aumento populacional, para se chegar até os fiéis tornou-se necessário o trabalho de mediadores mais portentosos: os veículos de comunicação. O foco de nossa pesquisa é a mediação televisiva e o peso que ela exerce na formação identitária religiosa na contemporaneidade. Deter-nos-emos na análise dos programas televangélicos, os quais representam anualmente cerca de cinco mil horas da programação dos canais abertos, conforme dados do OBITEL – Observatório Ibero-Americano da Ficção Televisiva. Nesse vasto universo, escolhemos como recorte empírico os programas Fala Que Eu Te Escuto (IURD/Rede Record) e Direção Espiritual (Igreja Católica/TV Canção Nova). Para interpretá-los, utilizamos princípios da Análise de Conteúdo, metodologia que tradicionalmente, desde a sua primeira aplicação, vem possibilitando a análise verticalizada de mensagens religiosas.

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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Opinião: O Cristo Redentor Agora é Evangélico


Donizete Rodrigues
professor de antropologia e sociologia da Universidade da Beira Interior (UBI)
Saulo Baptista
especialista em ciência política e pós-doutorando em sociologia na UBI.

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Crivella e Freixo em debate realizado pela Band no 2º turno.
Até o Cristo Redentor, símbolo do catolicismo brasileiro, do alto do morro do Corcovado, na baía de Guanabara, pode estar boquiaberto: um bispo evangélico prefeito do Rio de Janeiro? Mas esta eleição não é tão surpreendente assim, se levarmos em conta a declaração do próprio Marcelo Crivella; ele afirmou que chegara até ali com a preciosa ajuda de Luiz Inácio Lula da Silva e do “seu” Partido dos Trabalhadores (PT). Vamos tentar entender como tudo aconteceu.

Do ponto de vista histórico e político, as relações entre a cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e o PT remetem às primeiras tentativas de Lula chegar à presidência da República, nas eleições de 1989, 1994 e 1998, em que ele saiu derrotado. Nesta época, a IURD fazia uma forte oposição ao PT - por considerar este partido ‘um reduto de comunistas’- e, em particular, ao Lula, retratado como ‘um símbolo do mal’. Ou seja, o PT personificava a besta do Apocalipse e Lula era o próprio diabo em pessoa. A Folha Universal, jornal oficial desta igreja neopentecostal, colocou, como matéria de capa, a figura de Lula - comparando-o a um sapo, símbolo do mal - e afirmava que o diabo tinha quatro dedos na mão esquerda - em alusão à falta de um dedo que Lula perdeu num acidente de trabalho, quando ele era torneiro mecânico.

Esta situação conflituosa perdurou até à quarta tentativa de eleição para presidente do Brasil. Lula reuniu-se, em Brasília, com Carlos Rodrigues, o líder do braço político da IURD, que já controlava uma importante bancada de deputados evangélicos, resultando numa negociação bem sucedida para ambos os lados: atendia aos objetivos imediatos do Partido (ganhar as eleições e Lula ser presidente) e, por outro lado, reforçava a ambiciosa trajetória da Igreja nos meandros do poder político, via eleição de parlamentares, nos níveis municipal, estadual e federal, até chegar à conquista do executivo - objetivo atingido na cidade do Rio de Janeiro, nas últimas eleições do dia 30 de outubro.

A partir daí, o PT passou a ser apoiado pela IURD e pela sua poderosa máquina mediática, cuja maior expressão é a Rede Record de Televisão, segundo canal mais visto no Brasil (depois da poderosa Rede Globo) e líder de audiência em horário nobre. Agora, nos media iurdianos, o PT já não era ‘um grupo de comunistas’ nem Lula era ‘a personificação do diabo’. Assim, Lula conseguiu ser eleito, em 2002, e reeleito em 2006, em aliança com o Partido Liberal, tendo como vice presidente, o empresário e senador José Alencar (já falecido), um assíduo leitor da Bíblia e que achava que “a homossexualidade é uma forma de violência à natureza humana”.

Mas há o outro lado da moeda (de troca): o PT ajudou (e muito) na ascensão política de Marcelo Crivella, sobrinho do poderoso fundador e líder da IURD, Edir Macedo. Em 2002, Crivella foi eleito senador pelo Estado do Rio Janeiro e reeleito em 2010, com Lula na presidência do país.

Lula, com o forte apoio da IURD, conseguiu eleger Dilma Rousseff, em 2010, reeleita em 2014. E o PT agradece o apoio: em 2014, na inauguração do Templo de Salomão, em São Paulo, uma das maiores catedrais da IURD, participaram a ‘presidenta’ Dilma e o seu vice, Michel Temer, atual presidente do país. A foto mais famosa do evento é a de Dilma ao lado de Edir Macedo.

Em agosto deste ano, com o processo de impeachment de Dilma, da Presidência da República, facto aliado aos escândalos de corrupção, envolvendo o próprio Lula, o PT entra em declínio em todo o país. No eleitorado carioca, o índice de rejeição ao PT foi de quase 50% dos eleitores, o triplo das outras siglas partidárias. O PMDB, partido do impopular Presidente Temer, apresentava também altos índices de rejeição.

Crivella, outrora senador da base aliada do governo petista, já havia tentado uma eleição para governador do Rio, em 2014; na ocasião, não obteve apoio das Assembleias de Deus, outra poderosa força política evangélica no Brasil, que preferiram apoiar outros candidatos. Nesta eleição para ‘prefeito’ do Rio, porém, sem o PT e o PMDB, impopulares e enfraquecidos politicamente, o único candidato opositor no segundo turno era Marcelo Freixo, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), representando a esquerda. Marcelo Freixo ganhou o apoio da intelectualidade, dos artistas (Caetano Veloso, Chico Buarque e Wagner Moura e outros) e da classe média alta carioca, mas não conseguiu atrair os votos da população pobre, segmento social de base política da IURD; todos estes fatores históricos e políticos explicam a ascensão e vitória do bispo Marcelo Crivella à prefeitura do Rio de Janeiro.

Mas este é, apenas, um passo importantíssimo dentro de um projeto estratégico de poder da IURD, na sua marcha vitoriosa no contexto político brasileiro. E Marcelo Crivella não vai parar por aqui; ele já admitiu a possibilidade de se candidatar à Presidência do Brasil, com ou contra o seu antigo aliado Lula. Em 2018, os brasileiros poderão ter como líder máximo da nação um representante da Igreja Universal do Reino de Deus e aí o Cristo Redentor será coberto pelo manto sagrado do Espírito Santo.

SOBRE OS AUTORES

Donizete Rodrigues
Professor do Departamento de Sociologia da Universidade da Beira Interior, Portugal. Doutor em Antropologia social pela Universidade de Coimbra. Associado em Antropologia, com Agregação em Sociologia.

Saulo Baptista
Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (2007). Mestre em Ciências Sociais (Sociologia) pela Universidade Federal do Pará (2002), Graduado e Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Pará (1999), graduado em Engenharia Civil (1975), pela mesma universidade. Professor adjunto efetivo da Universidade do Estado do Pará.






quarta-feira, 14 de setembro de 2016

ENTRE A CURA E O ESPETÁCULO: a midiatização do discurso religioso na Nação dos 318


Carlos Renan S. Sanchotene

RESUMO

O presente artigo faz uma reflexão sobre o processo de midiatização do campo religioso e as estratégias de captura dos fiéis, a partir do programa televisivo religioso Hora dos Empresários, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Transmitido pela Rede Record de Televisão, o programa é destinado às pessoas que buscam uma solução para a crise financeira. Com estratégias distintas, os pastores oferecem ajuda aos telespectadores por meio dos serviços de autorreferencialidade, além da espetacularização do discurso religioso via imagens, testemunhos e dramatização. O estudo evidencia que a “cura” financeira, as conquistas e vitórias só podem ser alcançadas dentro do templo, através da Nação dos 318.

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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Media and Religion in Brazil: The rise of TV Record and UCKG and their attempts at globalization


Raul Reis

RESUMO

The Universal Church of the Kingdom of God (UCKG), a neo-Pentecostal religious group originally from Brazil, has attracted a great deal of attention since it was founded by Pastor Edir Macedo in 1977. Part of that attention is due to the group’s and its leaders’non-traditional religious practices, which include syncretic versions of Christian Pentecostal, shamanistic, and Afro-Brazilian Umbandan rituals. A great deal of scrutiny, however, centers on the fact that since the UCKG purchased TV Record in the early 1990s, the group has become a major player in the very desirable and profi table Brazilian broadcasting market. This paper examines the rise of UCKG as a major media player in Brazil, and also sheds some light into the Church’s attempts at globalizing (or at least expanding) its television and radio holdings to other countries and regions.

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terça-feira, 21 de junho de 2016

"Viver a religião hoje é um fato público que passa pela mediação da mídia" - Entrevista com Antônio Fausto Neto (parte 1)

22/06/16 
Por Marco Túlio de Sousa 
Doutorando em Comunicação (Unisinos) 

Professor Dr. Antônio Fausto Neto na Unisinos.
Hoje o “Mídia, Religião e Sociedade” inaugura uma nova fase com a seção Entrevistas, que conta com material exclusivo, obtido a partir do contato com pesquisadores da área. Nessa primeira edição conversamos com o professor Dr. Antônio Fausto Neto, docente do programa de pós-graduação em Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). A entrevista transcorreu em duas oportunidades, quando nos reunimos e debatemos a respeito das pesquisas realizadas pelo professor sobre as complexas relações que envolvem os campos religioso e midiático. A extensão do material nos levou a dividir o texto em duas partes. 

Neste primeiro momento, Fausto fala sobre como a adaptação às lógicas midiáticas faz com que produções católicas e evangélicas se aproximem do ponto de vista de suas performances, levando-o ao conceito de “religião do contato”. Tal discussão passa por questões discursivas que envolvem, inclusive, a materialidade do corpo. O pesquisador também constrói hipóteses sobre as razões que levaram as instituições neopentecostais se destacarem pela sua presença midiática.


Mídia, Religião e Sociedade (MRS): Professor, na sua trajetória acadêmica o senhor estudou diversos temas que envolvem a relação dos media com outros campos sociais e questões (a política, a literatura, a migração, o ofício do jornalismo etc), como a religião surgiu como interesse de pesquisa?

Fausto: Eu não sou um especialista em religião, nem tampouco um especialista em mídia e religião, esse viés vem de uma preocupação minha e do nosso programa (de pós-graduação da Unisinos) definida por uma pergunta: o que vem a ser chamado de campo midiático e que relações ele estabelece com outros campos sociais? Particularmente, que tipo de atividade emanava do campo midiático para o funcionamento de práticas de outros campos? Isso me preocupava bastante. Foi o que me levou a estudar comunicação e política (as campanhas eleitorais), a AIDS, a midiatização da ciência e também essa questão que envolve a mídia e religião, que era algo que já despontava naquele primeiro momento como uma problemática que se situava na “sociedade dos meios”: havia certa centralidade na medida que tanto o campo religioso quanto o campo midiático através de movimentos diferentes implementavam o funcionamento da religião no interior desse território chamado midiático. Isso é um fato importante. A religião sempre esteve presente por meio de colunas, sessões, registros etc, no campo midiático, mas há um momento, que é muito significativo, em que o tema da religião capilariza-se na sociedade por meio de fenômenos muito particulares como, por exemplo, a complexificação da “igreja eletrônica”, que foi estudada lá atrás pelo Hugo Assmann (ASSMANN, 1986) e outros autores (HARTMANN, 2000), a emergência dos padres cantores e da “onda evangélica” etc. Enfim, tal como estudei a relação do campo midiático com outros campos, também veio o interesse por entender como isso se dá com a religião.


MRS: Então podemos dizer que os estudos em mídia e religião estão integrados a um projeto maior que consiste no entendimento da relação do campo midiático com outros campos sociais...

Fausto: Sobretudo como dimensões e operações referência do campo midiático funcionam como condições de produção para a estruturação de outros campos do ponto de vista de estratégias simbólicas. E vice versa. Ou seja, as igrejas fazem funcionar suas atividades declaradamente a partir de recursos muito fortes que ela toma da mídia.


MRS: De 2003 a 2006 o senhor coordenou o projeto “Processos Midiáticos e Construção de Novas Religiosidades: as dimensões discursivas” que propunha analisar estratégias discursivas de produções televisivas católicas e neopentecostais e também a “produção midiática” de um acontecimento cuja origem é religiosa (o Círio de Nazaré). De que modo cada um deles articula formas de presença da religião na mídia que dizem de uma nova configuração do religioso no cenário atual?

Fausto: Vamos começar pelo primeiro ponto [produções televisivas católicas e neopentecostais]. Evidentemente há um aspecto forte aí que é essa transição da sociedade dos meios para a sociedade em vias de midiatização que faz com que a atividade midiática se complexifique de modo a ser produzida também pelo campo religioso, tanto nos seus processos gerenciais e quanto de estratégias discursivas. Ou seja, o campo religioso constitui as suas redes. Para fazer isso passa por uma série de negociações (políticas, empresariais etc).  Quando as igrejas vão para as mídias elas se modelizam em torno de linguagens, gramáticas e protocolos midiáticos, mas levando consigo suas respectivas pedagogias de contato com a sociedade. Talvez por isso hoje se possa dizer que há pouquíssimas diferenças entre programas das rádios e TVs católicas e evangélicas de segunda geração [pentecostais] porque a medida que a religião passou a ser um fato público ela passa a se organizar do ponto de vista estratégico em sintonia com um mercado discursivo de massa que está a espera de um chamado, um convite, uma adesão que só os dispositivos religiosos podem fazer hoje através desses mecanismos (midiáticos). Isso acontece quando a Igreja Universal vai lá para os grotões do Brasil, quando a Igreja Católica cria pastorais voltadas para jovens via música. Viver a religião hoje é um fato público e a maneira de materializar essa experiência em termos públicos se faz pela mediação tecno-simbólica das mídias. Isso tem um impacto muito grande quando a gente pesquisa o cotidiano da sociedade e vê isso faz parte do mundo das pessoas. Elas veem, escutam e transferem para suas casas a realização de rituais que não mais se restringem ao ambiente do templo, mas que são vivenciados entre famílias, grupos de oração, de discussão, de vizinhos, que ali estendem, como dizia o Max Weber, os braços das velhas igrejas para o mundo da vida. Isso é um fenômeno que não nasceu agora, é um fenômeno que tem um transcurso longo, mas que se agudiza e se complexifica hoje com essa transformação da organização da ambiência social em uma ambiência de midiatização de grande porte. As igrejas souberam ocupar um espaço no contexto midiático, mas para tanto tiveram que se adaptar, se redesenhar e revestir suas práticas e aspectos do seu discurso, da sua postura com aquilo que é próprio do campo midiático.


MRS: Em artigo publicado na revista Em Questão (FAUSTO NETO, 2003), que é um dos resultados dessa pesquisa, o senhor utiliza o termo “religião do contato” para caracterizar uma religiosidade que emergia dos programas televisivos tanto católicos quanto neopentecostais por meio de recomendações ao público de que se tomasse alguma atitude enquanto assistia o programa que implicava tocar em alguma parte do corpo). Essa dimensão do toque pode ser vista como uma forma de compensação da não simultaneidade espacial característica deste tipo de emissão? Por quê?

Fausto: Aí é uma hipótese que eu levanto de que todas as religiões se exercitam discursivamente pela dimensão do corpo. Ainda que em níveis diferentes o corpo é fundamental: o corpo da fé, da súplica, da expiação, do castigo, da adoração, da celebração. Na esfera do templo o corpo é um dispositivo central para que o ritual possa se consumir. A passagem da religião da esfera do templo para a esfera da mídia implica em potencializar ou exarcerbar certas regras da sua discursividade sem as quais tal passagem seria muito problemática e até mesmo descaracterizadora das pretensões destas instituições. Cada uma potencializa o corpo em uma direção. Quando eu digo que emerge aí “uma religião do contato” isso tem a ver com uma dimensão central da obra do Peirce, que é em relação ao índice, a religião não é só um fato representacional, simbólico. Você encontra principalmente no protestantismo de segunda geração (pentecostal) um investimento no corpo que parece mais intencional. O corpo age no sentido de evidenciar a performance dos atores sociais no quadro e no contexto dos rituais. Então, a religião do contato começa a se construir lá no templo, mas é nesta esfera [midiática] da sua visibilidade, da sua demonstração, que isso se toma uma dimensão muito mais desafiadora porque se expõe para a esfera pública, digamos assim, formas através das quais se imagina a celebração do ato religioso hoje. Essas formas passam pelo contato, pelo corpo, pela interpelação... passam por programas de escuta, Fala Que Eu Te Escuto, por exemplo e passam por prédicas e falas  que estão na fronteira do colóquio, da intimidade. Isso significa dizer: certa ritualização que emerge das mídias, dos gêneros midiáticos, da intimidade da televisão, ou seja, da “neotelevisão” (ECO, 1984), vem em auxílio dos desafios que representa hoje midiatizar religião. É a exacerbação dos rituais pela mediação do corpo e um corpo que toma como empréstimo operações dos gêneros midiáticos. Talvez neste modelo de midiatização da religião estejamos próximos a formatos e lógicas adotados por programas como o Big Brother Brasil, guardadas as devidas proporções e suas economias discursivas. Mas essa é só uma hipótese.


MRS: Esse apelo ao corpo e à emoção valorizado pela TV ajuda a explicar o porquê das igrejas Católica e Protestantes tradicionais terem tido maior dificuldade do que as igrejas Pentecostais para se adaptarem ao ambiente televisivo?

Fausto: sim, elas (igreja católica e igrejas protestantes tradicionais) estão ligadas a uma tradição mais racional e abstrata. Têm dois fatos que a gente repete e muitas vezes não reflete. O que representa a realização da missa nos idiomas nacionais [antes era em latim]? O que representa a mudança no rito no qual o sacerdote deixa de celebrar de costas para as pessoas e passa a fazê-lo de frente? Era uma relação com o altar na qual ele fazia duas ou três concessões quando ele se virava para saldar os fiéis. Nesse contexto ele era de fato um intermediário entre a instância do sagrado e a instância do povo, mas cuja relação fundamental de tensão e de vínculo se dava com o altar já que ele ficava de costas para as pessoas. A “virada” tem muitas consequências porque ele se expõe a um contato em que passa a se colocar como um mediador mais compartilhado com a vida da comunidade, mas que leva aquilo que a comunidade o confia à ordem do divino pelas especificidades do seu ministério. Essa “virada” significa o reconhecimento do corpo e da sua dimensão dramaturgizante, que é uma dimensão fundamental para produzir efeitos de sentido no âmbito discursivo-religioso. Aqui, creio que Goffman (2011) pode ajudar a explicar essa dinâmica. É impossível a gente repetir o modelo romano, o modelo europeu de celebrar as nossas crenças, as nossas inquietações na direção do sagrado sem que isso se faça sem uma explicitação dessa energia que o corpo reúne. Uma evidência de que isso parece ser verdade é que os grandes ritos religiosos passam cada vez mais por essa experiência do contato. É por isso que eu digo que o contrato foi substituído pelo contato. Esse contrato religioso no sentido de ir à missa, ao culto, observar certas prescrições do mundo do discurso religioso dá lugar a essa nova prática, a essa nova vinculação que se faz pelo contato que estamos tentando descrever.


MRS: O senhor usou o conceito de “religião do contato” (FAUSTO NETO, 2003) para caracterizar o fenômeno no âmbito televisivo, em que medida ele ajuda a entender a presença das religiões na internet? Ou teríamos que pensar em outras construções teóricas?

Fausto: Eu confesso a você que eu abandonei um pouco o meu processo observacional de um modo mais sistemático e tenho acompanhado isso mais pelos trabalhos de colegas seus (no programa de pós-graduação em Comunicação da Unisinos), mas me chama muito a atenção esse descolamento da esfera da televisão para a internet com a simulação e radicalização dos ofícios religiosos que seguem os enquadres ritualísticos engendrados na internet, a exemplo dos santuários digitais e uma série de protocolos que impulsionam a atividade religiosa. Penso que é uma tendência (esse deslocamento) uma vez que todas as práticas são midiatizadas seria inevitável que o mundo da internet não fosse também tensionado pelas práticas religiosas.*

* Para ler a segunda parte da entrevista clique <<<aqui>>>.

Textos citados na entrevista

ASSMANN, Hugo. A Igreja Eletrônica e seu impacto na América Latina. Petrópolis (RJ): Vozes, 1986.

ECO, Umberto. Viagem na Irrealidade Cotidiana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

FAUSTO NETO, Antônio. Religião do contato: estratégias dos novos "templos midiáticos". In: Emquestão –Revista da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS. Porto Alegre, RS: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Vol. 2, n 1(jan./jun 2003), p. 163-182.

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 18º ed. Petrópolis: Vozes, 2011.

HARTMANN, Attilio Ignacio. Religiosidade e mídia eletrônica: a mediação sócio-cultural-religiosa e a produção de sentido na recepção de tv. São Paulo, 2000. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) – ECA-USP.


Sobre o autor
Antônio Fausto Neto é pós-doutor em Comunicação pela UFRJ, doutor em Comunicação pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS) da França, mestre em Comunicação pela Universidade Nacional de Brasília (UNB) e graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Atualmente é professor titular do programa de pós-graduação em Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Interessa-se por temas relacionados a Jornalismo, Discurso, Noticiabilidade, Estratégias Midiáticas e Midiatização, tendo também já estudado objetos que envolvem religião, discurso e mídia, especialmente no âmbito televisivo.

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domingo, 19 de junho de 2016

AS NARRATIVAS DO REINO: Análise narrativa de programas televisivos da Igreja Universal nas madrugadas mineiras


Marco Túlio de Sousa

RESUMO

Este trabalho trata das narrativas religioso - midiáticas da Igreja Universal do Reino de Deus na Programação IURD mineira, que corresponde a um conjunto de programas televisivos veiculados diariamente pela Record Minas durante as madrugadas. Como recorte, escolhemos algumas edições do mês de julho de 2012, quando a igreja completou 35 anos de existência. Para desenvolver a análise, propomos uma triangulação teórica que contempla os conceitos de dispositivo, narrativa e experiência procurando perceber como estes se afetam mutuamente e se constituem nas suas interconexões. Tendo em vista este aparato conceitual, nosso objetivo consiste em olhar para a Programação IURD procurando identificar nos mundos que suas narrativas deixam ver possíveis pontos de força, de tensão, aspectos que ganham visibilidade, silenciamentos que emergem, bem como o público que se imagina atingir com as mesmas. Dessa forma, também pretendemos analisar o modo como a Universal se narra e por esta mediação narrativa se relaciona com os espectadores e com outros setores da sociedade.

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domingo, 29 de maio de 2016

Intersecção dos dispositivos midiáticos e religiosos: a midiatização como lógica do consumo na igreja Universal do Reino de Deus




Alexandre Dresch Bandeira

RESUMO

Esta dissertação expressa a investigação sobre a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) na perspectiva dos processos midiáticos. Teoricamente, reflete a partir dos conceitos de igreja eletrônica, dispositivos e campos midiáticos. Empiricamente, se desenvolve a partir de procedimentos de observação e pesquisa documental. O método de construção das análises seguiu uma linhagem descritiva, de sucessivas formalizações, utilizando recursos analíticos diversos, inclusive esquemas visuais (mapas, plantas, organogramas e fotografias), até se aproximar de conceitos centrais em torno dos quais procuramos pensar o midiático nesta Igreja. Esta análise procura mostrar todo o processo midiático através da intersecção dos dispositivos midiáticos e religiosos, envolvendo os vários conceitos nos problemas estudados, com a intenção de procurar entender como a IURD trabalha no campo midiático, misturando práticas das lógicas de consumo junto com as de religião.

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terça-feira, 17 de maio de 2016

Fé na Mídia: um estudo das imagens técnicas (Tv Record) como estratégia de comunicação e sobrevivência da Igreja Universal do Reino de Deus


Heinrich Araujo Fonteles

RESUMO

Esta pesquisa teve como objetivo estudar sobre o poder e a potência da imagem midiática e sua constituição como lócus de fé, articulando esta análise à linguagem jornalística, a qual se propõe de forma objetiva, neutra e racionalizada. A partir de um estudo teórico, por meio de uma abordagem metodológica interdisciplinar, baseando-se na teoria culturalística, articularam-se: (a) as teorias da imagem e da mídia, buscando identificar as origens das imagens visuais a fim de repensar como esta é evocada no contexto de um ambiente de comunicação semiótico midiático; e (b) as teorias de matizes sociológico, religioso e político, com o intuito de discutir poder, modernidade e neorreligiosidade. Para tanto, escolhemos como objeto de análise o Jornal da Record (JR), tendo como recorte a aproximação e distanciamento entre religião e comunicação observado nas reportagens de defesa do JR relacionadas aos escândalos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) ocorridos no ano de 2009. A sustentação teórica desta pesquisa foi desenvolvida com base nos conceitos e na tipologia de mídia de Pross; nos conceitos da escalada da abstração da imagem técnica de Flusser; nos conceitos da iconofagia pura de Baitello Jr; nas ideias sobre os imaginários propostos pela mediosfera e nas críticas ao paradigma da modernidade e do desencantamento do mundo de Contrera. Os resultados da pesquisa indicam que a fé na mídia é possível, uma vez que esta dá evidências de realidade para o sujeito. As neoreligiões, originadas nessa matriz, depositam confiança na mídia como forma de publicizar suas ideias, já que as imagens dão condição e potencializam o impacto na sociedade por meio da “noções de conceitos” e hipóteses-simulações possíveis de serem postas em práticas. A realidade passa a ser retratada pelo filtro religioso, disfarçada na racionalidade. É importante ressaltar que as noções de conceitos imagéticas dispensam a interpretação da realidade, visto que outras esferas de mediação produzem fatos e hipóteses possíveis ao se apoiarem na “Iconofagia (pura)” como forma de enganar a memória coletiva sobre acontecimentos, pois o recurso às imagens precedentes é altamente manipulável. Diante disso, a IURD, por meio do jornalismo da TV Record, encontrou uma forma de atuar em dois campos ao mesmo tempo: realidade e religiosidade. Suas notícias passaram a constituir matéria-prima dos programas religiosos. Tanto estes quanto aquelas têm raiz no solo popular, constituindo-se num “valor econômico” a ser negociado. Desta forma, a IURD, ao sustentar seu discurso na mídia, interfere e influencia o imaginário popular.

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quarta-feira, 11 de maio de 2016

Os contratos de leitura e a construção de vínculos de líderes evangélicos com seus fiéis na internet


Francieli Jordão Fantoni, Viviane Borelli

RESUMO

A Internet representa um marco importante para caracterizar a intensificação dos processos de midiatização das práticas religiosas evangélicas. A web, convertida em meio, agencia um novo discurso religioso para seus públicos. Neste sentido, o artigo analisa o caráter singular das estratégias que são acionadas pelos líderes das igrejas nesta ambiência, como forma de estabelecimento de vínculos por meio de contratos de leitura específicos que tomam forma por meio de distintos dispositivos midiáticos. Para isso, são analisados os portais das Igrejas Assembleia de Deus, Internacional da Graça de Deus e Universal do Reino de Deus. Observa-se que a autoridade religiosa é um fator significante para a constituição de uma imagem institucional e para a geração de simbologias entre seus fiéis

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A análise do jornal Folha Universal como instrumento de propagação da ideologia da Igreja Universal do Reino de Deus


Miguel Adilson de Oliveira Júnior

RESUMO

O objetivo desta pesquisa é analisar o jornal Folha Universal – um dos órgãos de comunica- ção da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) – como meio de propagação de ideologia da própria instituição. Esta análise justifica-se pela vontade de se saber qual a verdadeira posição do jornal no que diz respeito a posição do jornal frente aos candidatos da IURD nas eleições da cidade do Rio de Janeiro.

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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A religião dos celulares: consumo de tecnologia como expressão de fé entre evangélicos e umbandistas


Sandra Rubia da Silva

RESUMO

Ao longo de 11 meses de trabalho de campo em um bairro de camadas populares em Florianópolis, pude constatar importantes conexões entre o consumo de telefones celulares e a vivência da religiosidade entre evangélicos e umbandistas. Neste artigo, exploro as maneiras pelas quais os telefones celulares estão presentes no discurso e nas práticas religiosas desses dois grupos, percebendo o celular tanto como mediador positivo quanto negativo. A partir da análise do material etnográfico, argumento que a associação entre religião e uso de telefones celulares, além de aliviar a experiência da pobreza, traz renovadas possibilidades de expressão da identidade religiosa. Sugiro também que a dimensão política está presente, na medida em que suas funcionalidades – em especial o bluetooth e o SMS – auxiliam na disseminação do discurso religioso e na obtenção de novos adeptos.

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O Sexto Sentido e a sexta-feira 13: narrativas da Igreja Universal em um programa televisivo da Rede Record em Portugal



Marco Túlio de Sousa; Donizete Rodrigues

RESUMO
Este trabalho tem como objetivo contribuir para um melhor entendimento sobre a participação da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) na mídia em Portugal e como essa denominação brasileira se relaciona com a sociedade portuguesa e com as suas especificidades religiosas. Para a análise foram selecionadas cinco edições do Sixth Sense (programa de tevê da IURD em Portugal), em que há referências à sexta-feira 13, data cheia de misticismo no catolicismo popular. Com base na teoria narrativa de Paul Ricoeur, foi realizada uma análise de conteúdo dos programas, na qual se descortinou a cosmologia dessa igreja neopentecostal: um “mundo” onde forças antagônicas, que representam o Bem e o Mal, lutam entre si para dominar/ salvar as pessoas; a magia e as religiões espiritualistas são os agentes dominadores malignos, enquanto a IURD é o agente do bem, da salvação.


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domingo, 29 de novembro de 2015

LIVRO GRATUITO: Transnacionalização Religiosa: religiões em movimento

A obra "Transnacionalização Religiosa: religiões em movimento" está disponível para download gratuito no site da editora. É só fazer um cadastro. Clique <<<aqui>>> para saber mais.
Organizadores
Donizete Rodrigues
Ari Pedro Oro
Sumário

Introdução

13 COMO A FÉ E A RELIGIÃO ESTABELECEM CONEXÕES TRANSNACIONAIS? O PENTECOSTALISMO E SEUS MODOS DE EXPANSÃO NO MUNDO GLOBALIZADO
Cleonardo Mauricio Junior, Roberta B. C. Campos

21 PENTECOSTALISMO, GLOBALIZAçÃO E CONSUMO: UMA REFLEXÃO TEóRICA SOBRE OS BENS DE MARCAÇÃO RELIGIOSA 
Daniel Alves

43 DINÂMICAS DO PENTECOSTALISMO BRASILEIRO NA EUROPA: O CASO DA IURD EM PORTUGAL, ESPANHA, IRLANDA, ITÁLIA E ALEMANHA
Donizete Rodrigues, Marcos de Araújo Silva

55 PROSPERIDADE E LIBERTAçÃO: SOBRE A CONSTRUçÃO DA IDENTIDADE EVANGÉLICA TRANSNACIONAL NOS RITUAIS ARGENTINOS DA IGREJA UNIVERSAL 
Marcelo Tadvald

79 AS IMBRICAçÕES DA IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS NA “RECONSTRUçÃO NACIONAL” DE ANGOLA: DA BENEVOLÊNCIA À ALTERIDADE MUçULMANA 
Camila A. M. Sampaio

97 IGREJA EVANGÉLICA ENCONTROS DE FÉ DE PORTO ALEGRE: SENTIDOS E EXPERIÊNCIAS DE PARTICIPAçÃO EM REDES TRANSNACIONAIS 
Mariana Reinisch Picolotto, Ari Pedro Oro

127 A IGREJA COMO PEDACINHO DO BRASIL: RELIGIÃO TRANSNACIONAL NA CAPITAL DO TEXAS 
Rodrigo Otávio Serrão Santana de Jesus, Flávia Ferreira Pires

147 O PROCESSO DE TRANSNACIONALIZAçÃO RELIGIOSA AO SUL DA AMÉRICA DO SUL: RECONSTRUINDO PERCURSOS E NARRATIVAS MÍTICAS
Mauro Meirelles

173 MINHA LÍNGUA, MINHA FÉ, MINHA IGREJA: SER CATóLICO ESTRANGEIRO DE LÍNGUA PORTUGUESA NA HOLANDA
Mísia Lins Reesink

197 MISSIONÁRIOS DO FIM DO MUNDO: MISSIONÁRIOS E MISSÕES CATóLICAS BRASILEIRAS ALÉM-FRONTEIRAS EM TEMPOS DE TRANSNACIONALIZAçÃO RELIGIOSA 
Antônio Mendes da Costa Braga

225 A “CONSTRUçÃO” DA IDENTIDADE AFRO-RELIGIOSA NA FRONTEIRA BRASIL, PERU E COLÔMBIA 
Reginaldo Conceição da Silva

247 A DESCOBERTA DE PUTAMAGAL PELO CABOCLO PENA DOURADA
Joana Bahia

265 TRANSNACIONALIZAçÃO RELIGIOSA E CONVERSÃO: UM DIÁLOGO SOBRE O BUDISMO DA SOKA GAKKAI NO BRASIL
Suzana Ramos Coutinho

291 Índice Remissivo

309 Resenhas Biográficas

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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O comportamento dos telespectadores diante da programação televisiva neopentecostal


José Guibson Delgado Dantas

RESUMO

Este trabalho analisa a forma como se dá a recepção das mensagens religiosas emitidas pelos programas televisivos das igrejas neopentecostais a partir da teoria das mediações culturais formulada por Jesús Martín-Barbero. Por meio da técnica grupo de foco, foram entrevistadas onze pessoas que costumam assistir a esses programas, resultando em noventa minutos de conversa que mostrou uma recepção crítica e contraditória, pois, ao mesmo tempo em que os telespectadores se mostraram críticos em relação ao conteúdo religioso emitido por esses programas, denunciando, inclusive, a transformação da Bíblia em produto comercial por parte dos pastores, eles consideraram os programas como uma forma positiva de se difundir as Escrituras. Ao analisar os discursos dessa audiência ativa, concluiu-se que o que leva essas pessoas a assistirem aos programas é o desejo de terem um espaço de representação social num país marcado pela exclusão e abandono de grande parcela de seu povo.

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terça-feira, 10 de novembro de 2015

A religiosidade na mídia e o fim dos iconoclastas


Alberto Klein

RESUMO


A proposta deste trabalho é traçar um paralelo do tratamento dado ao problema da imagem no âmbito religioso em dois contextos distintos. O primeiro é a desaprovação zuingliana e calvinista (nos primórdios da Reforma do séc. XVI) do uso de ícones nos templos; a fúria dos calvinistas diante das imagens rendeu‐lhes a fama de iconoclastas. Num segundo momento, em um contexto de sobreposição das mídias eletrônicas sobre processos primários de comunicação, vamos nos deter sobre a conversão do próprio culto evangélico em imagem midiática, obedecendo a uma estética televisual.

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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Dispositivos de telecura e contratos da salvação



Antônio Fausto Neto

RESUMO
Os campos religioso e midiático articulam-se em torno de dispositivos de operações discursivas gerando uma modalidade de “fazer religião”. Uma das características do modelo interativo das teleemissões é eleger problemáticas situacionais das pessoas, transformando-as em demandas e soluções mediante estratégias de cura e de salvação. A noção de saúde está associada às observâncias dos “contratos de leitura” que situam o fiel paciente em uma estrutura de linguagem enclausurada. Aí permanece, portanto, em um “regime simbólico” que o mantém em novas situações de enfermidades.

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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O Deus televisivo da IURD: análise de um programa-modelo para a corrente Neopentecostal


José Guibson Delgado Dantas

RESUMO

A cada ano as igrejas neopentecostais ocupam mais espaço na programação televisiva nacional. A IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), que iniciou suas atividades em 1977, fez escola e é considerada como uma instituição religiosa-modelo pelas igrejas dessa corrente religiosa no que se refere à exploração do espaço televisivo para a adesão de fiéis. Neste texto, o autor analisa um programa televisivo desta igreja, revelando o alto grau de profissionalismo na construção de discurso e na utilização dos recursos audiovisuais da televisão.

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terça-feira, 22 de setembro de 2015

LIVRO: Mídia e Religião: entre o mundo da fé e o do fiel


Viviane Borelli

O livro apresenta uma coletânea artigos feita pela professora Dra. Viviane Borelli, docente do programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Na obra discute-se as relações entre mídia e religião.

Comentários:

O livro mostra que está emergindo um novo modo de ser religioso midiatizado, uma relação cada vez mais paradoxal: religiosidade individualista, consumista, emocional, espetacularizada, de mistura de rituais e tradições.


Luis Ignacio Sierra Gutiérrez.

É apreciável o fato do livro reunir matéria-prima de qualidade que pode alimentar as disciplinas de pesquisa sobre fenômenos midiáticos, uma vez que traz indicações muito estimulantes acerca do trabalho da midiatização das práticas religiosas.

Antonio Fausto Neto

SUMÁRIO

  • PARTE I. CONTRATOS
    • 1. Dispositivos midiáticos e as novas “formas” do fenômeno religioso
      Viviane Borelli
    • 2. Entre o religioso e o midiático: programa Show da Fé e a busca pela fidelização do fiel/patrocinador
      Camila Klein Severo e Viviane Borelli
    • 3. Midiatização e espetáculo telerreligioso: a “cura” financeira na Nação dos 318
      Carlos Renan Samuel Sanchotene e Viviane Borelli
    • 4. Discurso midiático iurdiano: uma análise do Ponto de Luz
      Juliano Pires da Rosa, Kellen dos Santos Severo e Viviane Borelli
    • 5. Os ditos e não ditos no embate midiático Record versus Folha de São Paulo e Globo
      Juliano Pires da Rosa e Viviane Borelli
  • PARTE II. DISPOSITIVOS
    • 6. Dispositivos midiáticos mudam o templo da Igreja Internacional da Graça de Santa Maria-RS 
      Ananda da Silva Delevati, Carolina Moro da Silva e Viviane Borelli
    • 7. Mídia, religião e a comunidade de recepção: cruzamentos de lógicas, processos e sentidos
      Ananda da Silva Delevati, Carolina Moro da Silva e Viviane Borelli
    • 8. Novas relações entre a igreja e seus fiéis: um estudo dos dispositivos midiáticos da Assembleia de Deus de Santa Maria-RS
      Sandro Luis Wodzik Verone e Viviane Borelli
    • 9. Igreja Universal do Reino de Deus e Igreja Internacional da Graça de Deus: websites como dispositivos estratégicos de comunicação
      Taís Steffenello Ghisleni e Viviane Borelli
    • 10. O fiel em tempos de web 2.0: interações sociais no blog de Edir Macedo
      Carlos Renan Samuel Sanchotene
  • Posfácio. Religiosidade hipermidiatizada
    Luis Ignacio Sierra Gutiérrez

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domingo, 9 de agosto de 2015

"Casos de família": um olhar sobre o contexto da disputa "Igreja Universal do Reino de Deus x Igreja Mundial do Poder de Deus" nas mídias


Magali do Nascimento Cunha

RESUMO

A propósito das disputas entre a Igreja Universal do Reino de Deus e a Igreja Mundial do Poder de Deus no primeiro semestre de 2012, o artigo estuda a dimensão do espetáculo e do mercado cultural religioso nas mídias. Por meio de uma pesquisa exploratória dos principais escândalos e embates envolvendo igrejas e líderes religiosos nas mídias nas últimas décadas, o estudo busca (1) localizar o fenômeno da espetacularização da fé como uma estratégia de marketing, como resposta à concorrência, que inclui a visibilidade também por meio de conflitos; (2) indicar caminhos que instigam a novas investigações.

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terça-feira, 28 de julho de 2015

Narrativas do (Con-)vencer: Testemunhos de Fracasso e Sucesso da Igreja Universal na sua Programação Televisiva em Minas Gerais


Marco Túlio de Sousa

RESUMO

No presente estudo oferecemos uma análise narrativa da Programação da Igreja Universal que consiste em programas televisivos da Igreja Universal veiculados em Minas Gerais no período da madrugada. Com base no método da “semana construída” e na teoria narrativa de Paul Ricoeur (2010a, 2010b, 2010c), oito edições foram analisadas com o objetivo de se entender a relação que a igreja procura construir com o público por meio de seus textos e textualidades e o modo como estes se relacionam entre si. O percurso realizado permitiu-nos identifi car a existência de uma “arquitetura narrativa” comum a todos os programas que compõem a Programação IURD, qual seja: “narrativas de fracasso” atreladas às “narrativas de sucesso” que são mediadas pelos comentários dos pastores. Assim, parece-se buscar uma “dupla identificação” do público com os problemas e as soluções, com intuito de convencê-lo a ir a um dos cultos da denominação.

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