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sexta-feira, 25 de novembro de 2016
Representations de la diversité religieuse à la télévision publique
Mihaela Alexandra Tudor
RESUMO
Le problème que je pose dans ce cadre consiste à voir quel sont les pratiques des médias de service public à l’égard des représentations de la diversité religieuse et, plus précisément, à l’égard des représentations de transmission et communication de la foi dans deux pays européens dont l’un fort religieux et l’autre fort laïc, la Roumanie et la France. Il est question de voir en quoi le discours des médias publics sur la diversité n’altère pas le principe de la laïcité, la neutralité, le respect du pluralisme et l’intégralité des consciences. Pour ce faire, je vais retenir deux cas de figure, deux émissions télévisées diffusées sur les chaînes publiques de télévision en France et en Roumanie : l’émission « Le jour du Seigneur », avec ses déclinaisons d’intitulé au fil du temps « Programme du dimanche » et « Les chemins de la foi », diffusée sur France 2 et « Universul credintei » (« l’Univers de la foi ») diffusée sur TVR1. En considérant ces deux programmes de télévision, je vais tenter de répondre globalement aux questionnements suivants: est-ce que tous les mouvements religieux sont-ils présents dans les médias audiovisuels publics autant que les acteurs des confessions religieuses traditionnellement implantées? Oui, c’est une réalité, certains mouvements disposent de leurs propres chaînes, mais leur présence sur leurs chaînes privées ne remplace pas un droit par un autre. S’agit-t-il alors d’une situation de monopole et de visibilité maximale des courants religieux dominants dans l’espace public au travers des médias publics? Plus de normalisation garantit plus d’accès compte tenu que le principe de laïcité prévoit l’égalité et l’absence de hiérarchie entre les différentes croyances et cultes?
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segunda-feira, 21 de novembro de 2016
Do sagrado tribal ao sagrado midiático: o televangelismo e a formação identitária religiosa
Dora Deise Stephan Moreira
RESUMO
O presente trabalho versa sobre as transformações por que passaram a relação do homem com o sagrado, desde os primórdios até os dias atuais. Na pré-história essa relação se dava, essencialmente, de forma a garantir a sobrevivência dos hominídeos, diante das intempéries da natureza. Num estágio mais avançado, houve uma intensificação dessa relação, uma vez que o homem das sociedades arcaicas passou a atribuir um sentido sagrado a tudo que estava ao seu redor, através das hierofanias. Veneravam-se deuses por intermédio de totens, extraídos do próprio meio ambiente. Com o advento das religiões de salvação, que tiveram no Cristianismo seu maior expoente, surgiu o elemento mediador entre o homem e o sagrado, representado, sobretudo, pelos profetas e sacerdotes. Por um longo tempo, as identidades religiosas possuíram um caráter mais fixo e permanente. Gradativamente, foi dando-se o processo de secularização da sociedade, fator que, dentre outros, ocasionou mudanças substanciais no campo religioso, impactando sobremaneira essas identidades. Os arautos do sagrado foram se transmutando. Com o aumento populacional, para se chegar até os fiéis tornou-se necessário o trabalho de mediadores mais portentosos: os veículos de comunicação. O foco de nossa pesquisa é a mediação televisiva e o peso que ela exerce na formação identitária religiosa na contemporaneidade. Deter-nos-emos na análise dos programas televangélicos, os quais representam anualmente cerca de cinco mil horas da programação dos canais abertos, conforme dados do OBITEL – Observatório Ibero-Americano da Ficção Televisiva. Nesse vasto universo, escolhemos como recorte empírico os programas Fala Que Eu Te Escuto (IURD/Rede Record) e Direção Espiritual (Igreja Católica/TV Canção Nova). Para interpretá-los, utilizamos princípios da Análise de Conteúdo, metodologia que tradicionalmente, desde a sua primeira aplicação, vem possibilitando a análise verticalizada de mensagens religiosas.
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segunda-feira, 24 de outubro de 2016
“Midiatização da Religião: processos midiáticos e a construção de novas comunidades de pertencimento - Estudo sobre a recepção da TV Canção Nova”
Paulo Roque Gasparetto
RESUMO
Examina-se aspectos do funcionamento do fenômeno da midiatização da religião caracterizada como “comunidades de pertencimento”, dando atenção para as suas causas, mas, sobretudo, mostrar experiências televisivas que atravessam o cotidiano dos fiéis, deslocando-os para vivências que se realizariam no interior da comunidade demarcadamente sociorreligiosa- televisiva. Mostra-se as estratégias de reconhecimento de sentido religioso e práticas sociossimbólicas religiosas, desenvolvidas por receptores católicos da TV Canção Nova, em Caxias do Sul.
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terça-feira, 4 de outubro de 2016
A religião teleterapeutizante: discursividades dos templos midiáticos
Antonio Fausto Neto
RESUMO
Com base em pesquisa de teleemissões veiculadas no período de 2002/2004, estudam-se, além dos diferentes formatos de permanência da religião na esfera pública no Brasil, as estratégias de embate religioso – Igrejas Evangélica e Católica – no sentido de uma nova configuração do mercado religioso. Descrevem-se os dispositivos midiáticos para fazer face aos diferentes sintomas que neles se apresentam, através de demandas e de buscas de processos de curas às diferentes formas de mal-estar que acometem a saúde do corpo e da mente dos indivíduos que se expõem aos programas. Não se trata mais da prédica de uma religião abstrata, mas daquela que, fundando-se na ‘economia do contato’, trata de transformar o lócus midiático em ambiente de consolo, atendimento e de terapeutização.
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domingo, 21 de agosto de 2016
Decifra-me ou te devoro: os desafios das igrejas na sociedade em midiatização – Entrevista com Pedro Gilberto Gomes
22/08/2016
Por Marco Túlio de Sousa
Doutorando em Comunicação (Unisinos)
![]() |
| Professor Dr. Pedro Gilberto Gomes da Unisinos. |
A segunda entrevista do Mídia, Religião e Sociedade é com o pesquisador Dr. Pedro GilbertoGomes, docente do programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade do
Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e pró-reitor Acadêmico na mesma universidade.
Na entrevista concedida a Marco Túlio de Sousa, administrador deste blog, o
professor falou dos conceitos de “igreja eletrônica” e “midiatização” e destacou a importância de
pesquisadores e instituições religiosas compreenderem o que significa hoje
estar na mídia hoje.
Mídia,
Religião e Sociedade (MRS): Em seu livro “Da Igreja Eletrônica à sociedade em midiatização” (GOMES, 2010) o senhor traz o conceito de
“igreja eletrônica” para falar em um primeiro momento dos televangelistas
americanos e depois propõe pensar esta problemática que envolve mídia e religião por meio do conceito de “midiatização”. Para o senhor o conceito de “igreja eletrônica” é produtivo para
pensar apenas aquela dinâmica inicial ou desde sempre ele já mostrou
insuficiente para dar conta deste fenômeno?
Pedro Gilberto Gomes: Veja, nem uma coisa nem outra, no meu entendimento,
se a gente olha o que está na raiz dos televangelistas norte americanos nós
encontramos um histórico que os liga aos revivals que vem desde a época
do faroeste. Basicamente, de tempos em tempos surgia um grande pregador nos EUA
que percorria o país de cidade em cidade, com grandes tendas armadas, para
fazer aquele reavivamento moral. Posteriormente, esse reavivamento veio a
acontecer no radio, com os grandes pregadores, dentre eles o Billy Graham, que
era batista, e o Fulton Sheen, do lado católico. Já os televangelistas, aqueles que eu faço uma resenha
no livro, levam isto para a TV. E aí é que vem o conceito de “igreja
eletrônica”. Eles criam, eles trabalham com uma igreja cuja base é a televisão.
Muitos começam na televisão, depois constroem uma catedral, criam
universidades, hospitais e quando chegam a criar um canal próprio de televisão quebram. Mas eles não são uma igreja no sentido estrito, como nós
conhecemos (com templos e pastores espalhados em vários lugares etc). Muitos
até estavam em uma religião tradicional, batista, metodista, por exemplo,
tinham uma iluminação e começavam a pregar na televisão. Com
o tempo ficavam mais famosos que a própria igreja e se separavam dela, fundando
a sua própria, que era a “igreja eletrônica”. Então, nesse conceito a Universal não pode ser
considerada uma igreja eletrônica. Por quê? Porque
se tu vais de norte a sul do Brasil ou nos países onde ela está, ela tem
templos espalhados. O central dela não é, como para os televangelistas
norteamericanos, a comunidade como igreja eletrônica. Então, esse conceito explica aquele momento e ajuda a
pensar. Quando eu levo para a discussão de ”midiatização” para explicar essa relação mídia e religião é porque eu começo a perceber que nessa realidade
de uma sociedade em midiatização, neste novo ambiente que se estabelece, o modo
de fazer religião muda.
MRS: E quanto ao envolvimento das
instituições religiosas,
especificamente da Igreja Católica, como o
senhor vê essa relação?
Pedro Gilberto Gomes: Bom, antes de
trabalhar nessa questão da
midiatização, eu publiquei um artigo que saiu na revista
Perspectiva Teológica que se chamava “Decifra-me ou te Devoro”, em que falava
da Igreja Católica e que se nós não decifrássemos esse enigma de estar presente nos grandes
meios (que naquele contexto era a televisão) seríamos devorados por eles. O título
foi uma analogia na qual a mídia é o primeiro anel do livro Senhor dos Anéis,
do Tolkien. Se alguém achava que poderia usar o poder do anel para fazer
qualquer coisa era engolfado pelo poder dele, já que ele obedecia ao Sauron. E
se tu vês no final, o anel só foi destruído por um acidente, senão ele não teria
sido destruído. E olha que o Frodo não queria usar o anel. Ele foi lá pra
destruir o anel e mesmo assim o anel o pegou. Quer dizer, a mídia é como esse
primeiro anel de Tolkien porque se eu não a decifro sou destruído por ela.
Tenho que estar na televisão, mas preciso analisar o que significa isso, que
tipo de religião se está criando. Por exemplo, o padre Marcelo estruturou sua vida em torno
da televisão e acho que ele não a decifrou corretamente, tanto que ele foi
engolido por ela. Hoje se olhares a televisão, ele está pouco lá. E muitas vezes quando ele aparece é
para falarem que ele está magro etc. Não é mais aquele padre que está na televisão, celebrando a missa cantando e dançando. Agora existem outros.
MRS: e as demais igrejas? Decifraram esse enigma?
Pedro Gilberto Gomes: Não, ainda
estão engatinhando. O grande problema é que as igrejas se colocam ainda como se
estivessem em uma “sociedade dos meios” (FAUSTO NETO, 2008), achando que os meios
não são outra coisa que canais para passar a sua mensagem. Então eu posso
entrar e, claro, em vez de falar para um grupinho de 12 pessoas, agora, com a
internet, eu falo para milhões de pessoas, eu passo a minha mensagem. Não é
assim, existem normas, existem regras, existem dinâmicas próprias das mídias
que são diferentes das normas da religião e eu tenho que fazer concessões. Por
exemplo, aqui no Rio Grande do Sul os capuchinhos venderam um canal de TV para
Bandeirantes, que por um tempo continuou a transmitir a missa. O encarregado
era o frei Renato Zanola e a primeira coisa que a emissora colocou como condição era que ele usasse o hábito na hora de rezar a missa. Mas eu nunca o vi de hábito. Isso foi
uma foi uma concessão que ele teve de fazer ao espetáculo. Essas coisas é que a
igreja não está se dando conta. Daí a pergunta que eu faço a partir do Hoover:
eu não tenho que perguntar o que a religião faz com os meios, mas que religião
está surgindo deles? A mídia em geral cria novas condições de relacionamento
entre as pessoas. Então nesse sentido, se muda o modo de ser religioso. Por
exemplo, pega o site [da basílica] de Aparecida, o A12. Lá tu podes colocar uma
vela para Nossa Senhora e definir até a duração dela. Existe
a possibilidade de fazer uma visita guiada ao santuário. E nessa visita guiada
tu vês a imagem original de Aparecida com muito mais riqueza, com muito mais
facilidade do que se for lá.
MRS: Este é um ponto interessante porque muitas vezes
se tem essa percepção, inclusive na academia, de que a experiência religiosa nessa ambiência é sempre de baixa qualidade, inferior se compararmos com aquela
vivenciada no templo. Então, parece que a questão não é bem essa...
Pedro Gilberto Gomes: é
qualitativamente diferente, é outra coisa. Eu vou te dar o exemplo de uma tese
defendida no programa [de pós-graduação em Comunicação da Unisinos] sobre missa
televisiva. O Domingos Volney Nandi fez uma pesquisa quantitativa com dados de
quem assistia as missas do padre Marcelo Rossi. Depois fez uma pesquisa
qualitativa, com grupos focais. Nessa fase ele pegou uma missa do padre Marcelo
e nos momentos em que aparecia o povo cantando substituiu pelas imagens da
plateia do Faustão. Ninguém percebeu que não era o mesmo público. Aí ele se perguntou: o que
está havendo? É um novo modo de ser mostrando também que no caso da televisão
existem regras e dos processos televisivos aos quais eu tenho de fazer
concessão. E quando eu faço concessão a essas regras, eu mudo o modo de ser
religioso, eu mudo o modo de ser igreja, eu mudo o modo de ser em sociedade. Em
outro trabalho sobre o site da Canção Nova mesma coisa. Se não se fala
em Nossa Senhora, ninguém diferencia este do site do Edir Macedo. Não há diferença.
MRS: então essa nova ambiência acaba, de algum modo,
aproximando as instituições do ponto de vista de suas performances?
Pedro Gilberto Gomes: Sim. O conteúdo dentro desses meios se torna
secundário, porque o que muda é o modo de relacionar. No site da Canção Nova
tem missa, tem participação, pedido de oração, conselho. No caso do Edir Macedo
não vai ter a missa, mas o culto, tem a pergunta para ele, pedido de oração, as manifestações etc. A questão não é de conteúdo é o modo de ser, como acostumo a assistir a
missa, a fazer a oração diante do site, a conversar via site, a ouvir as
respostas de oração, acender velas em ambiente virtual etc.
MRS: Bom, mesmo com essas semelhanças nós percebemos
que a igreja católica e as igrejas protestantes tradicionais inicialmente
apresentaram mais dificuldades pra poder se inserir e ocupar esses espaços na
mídia. Enquanto isso igrejas evangélicas pentecostais despontaram com produções
em todas as mídias. A que o senhor atribui isso?
Pedro Gilberto Gomes: a grande maioria das igrejas evangélicas
pentecostais já nasceu sob o signo da televisão. Elas apenas entraram na
corrente. E assim como entraram na televisão, também fizeram o mesmo nas redes sociais. A história
dessas igrejas é uma história recente. Portanto, elas não têm nenhuma
preocupação, nenhum compromisso com uma tradição. Não têm o peso da
história. As igrejas históricas, tanto a católica quanto a luterana, ortodoxa,
etc, todas essas igrejas têm uma tradição. Quando o rádio, a televisão e as redes sociais chegaram, elas já tinham uma história. O que
está por trás dessas igrejas ainda é o conteúdo, o importante é o conteúdo. Para
elas os meios de comunicação são instrumentos para que se expanda cada vez mais
a Palavra, porque a palavra é que é importante, o conteúdo da mensagem é que é importante. As
igrejas mais modernas [neopentecostais] já nasceram sob o signo da
transitoriedade, percebendo que o importante é o parecer, o espetáculo. Eu
voltaria a dizer pra ti o seguinte: toda essa situação está lançando para as
igrejas históricas um enigma que deve ser decifrado. Ou elas decifram, ou serão
devoradas. Ok?
Textos citados na entrevista
GOMES, P. G.. Da
Igreja Eletrônica à sociedade em midiatização. São
Paulo: Paulinas, 2010.
NANDI, Domingos Volney. Missa Catódica. O (des)
encontro de suas lógicas no processo de midiatização da ritualidade da
Celebração Eucarística. 2005. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) -
Universidade do Vale do Rio dos Sinos.
Sobre o autor
Possui graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1973), especialista em Teologia pela Pontificia Universidad Católica de Santiago, mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (1987) e doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (1991). Atualmente é professor titular da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Jornalismo e Editoração, atuando principalmente nos seguintes temas: comunicação, comunicação cristã, comunicação, cultura e mídia. Membro do Conselho de Ciência, Tecnologia e Inovação do Rio Grande do Sul, membro do Conselho Superior da CIENTEC do Rio Grande do Sul e membro do Conselho Superior do CETA/SENAI e do CNTL/Ceta/Senai. Membro do Conselho Superior da FAPERGS (Fundação de Amparo à Pesquisa do estado do Rio Grande do Sul. Exerce o cargo de Pró-Reitor Acadêmico da Unisinos e é Diretor da Editora da mesma Universidade.
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domingo, 26 de junho de 2016
"Viver a religião hoje é um fato público que passa pela mediação da mídia" - Entrevista com Antônio Fausto Neto (parte 2)
27/06/2016
Por Marco Túlio de Sousa
Doutorando em Comunicação (Unisinos)
Na primeira parte da entrevista o professor Dr. Antônio Fausto Neto falou da sua pesquisa sobre as produções televisivas da igreja católica e de igrejas evangélicas pentecostais. De acordo com ele, apesar das doutrinas das igrejas diferirem, a inserção na mídia fazia com que se adaptassem a lógicas próprias do campo midiático, tornando suas performances similares. Além desta análise sobre a presença da religião na TV, integra o projeto “Processos Midiáticos e Construção de Novas Religiosidades: as dimensões discursivas” uma investigação a respeito da midiatização do Círio de Nazaré. É com este tema que continuamos a entrevista.
MRS: Eu queria que o senhor falasse do segundo ponto do projeto de pesquisa, que envolve o Círio de Nazaré.
Por Marco Túlio de Sousa
Doutorando em Comunicação (Unisinos)
![]() |
| Professor Dr. Antônio Fausto Neto na Unisinos |
MRS: Eu queria que o senhor falasse do segundo ponto do projeto de pesquisa, que envolve o Círio de Nazaré.
Fausto:
Foram
dois momentos de observação sobre duas procissões: uma há mais de 10 anos [2001]
e outra em um momento mais recente [2013]. No primeiro estudo eu procurava
mostrar como os campos sociais se tensionavam e, particularmente, como o campo
religioso era tensionado pela presença de outros campos na organização e no
funcionamento de certos rituais. Ou seja, como os campos da política, da
economia, da segurança etc faziam convergir para o campo religioso um conjunto
de cooperações a fim de que aquele acontecimento, não obstante a sua dominância
religiosa, tivesse marcas de outros campos sociais que, por seu turno,
faturavam essa colaboração do ponto de vista eleitoral e de propaganda/
publicidade de mídia etc. Ali se apresentava o início dessas articulações complexas
de campos. Era um evento/ ritual católico, mas que, por ser um acontecimento
que atravessava os veios da organização social em termos de devoção, de crença
e de reputabilidade pública, para sua realização se oferecia o concurso de
muitas práticas de campos sociais como uma forma destes campos também
investirem a sua reputação simbólica na medida em que também participavam da
sua realização. Ou seja, a romaria tinha um veio dominante católico/ religioso,
mas não existiria se não fossem estes outros interesses que perpassavam a sua
organização. Já no outro estudo, mais de 10 anos depois, eu mostrei uma
mudança, uma complexificação dessas relações entre campos, mas, sobretudo, a
importância desse acontecimento de rua que tomava uma feição, não só pela
robustez da fé e da devoção dos fiéis, mas pela presença de redes sociais. O
acontecimento era em uma ponta dinamizado pela internet e pelas redes sociais e
levado adiante por esse movimento de um coletivo amplo, e não mais só pelos
romeiros. Era dinamizado pelo twitter,
pelo facebook. Na outra ponta
repousava sobre sistemas midiáticos tradicionais e modernos o processo de
anunciabilidade. Ou seja, ao longo da procissão instalavam-se na Av. Nazaré, em
Belém, vários estúdios improvisados em apartamentos onde se alocavam várias
celebridades como padre Fábio de Melo, padre Marcelo, Fafá de Belém etc. Todas
estas celebridades coordenando um estúdio de rádio ou televisão transmitindo o
evento, mas da perspectiva da lógica dos seus interesses e das mídias também.
Isso ocorre a tal ponto que em certo momento a procissão passa em frente ao
local onde está o padre Fábio de Melo e ele não só dá a bênção, que seria a
benção aos fieis que tradicionalmente é dada pelo bispo local que esperava a
procissão no final do cortejo, mas também faz uma selfie, como a dizer: “eu estive aqui e nessa função específica”, foto
essa que naquele momento foi espalhada para urbi et orbi (para o mundo) mostrando sua performance. Fafá de
Belém leva uma orquestra para tocar. Então, têm-se várias iniciativas que tratam
de convergir com a natureza da festa, que também fazem derivar dela alguns
produtos de ordem midiática, mas na perspectiva de uma economia de negócio, uma
economia simbólica que não tem como central a procissão e o ator religioso nas
suas fronteiras.
MRS:
isso
diz muito da entrada de uma lógica do espetáculo atravessando o ritual
religioso. Ou seja, o ritual religioso permanece como ponto de articulação, mas
permeado agora por outras lógicas...
Fausto:
sem
dúvida! Apesar de toda a sua riqueza, a lógica do espetáculo religioso é inibida
pela presença de outras formas ritualísticas de espetáculo que comparecem não
só nos seus representantes, mas também por seus dispositivos técnicos que dão a
aquele acontecimento uma leiturabilidade totalmente distinta da que seria
característica do evento, ou seja, da devoção da missa etc. Cada um tira
partido, digamos assim. Isso tem se complexificado a tal ponto que as pessoas
que moram naquela região alugam por uma semana as fachadas dos seus
apartamentos a preços bem apreciados para serem transformados em estúdios de
rádio e televisão, e, sobretudo, de celebridades.
MRS:
Bom, o senhor acabou tocando neste ponto de forma indireta em alguns momentos da entrevista,
mas, para sistematizar, eu gostaria que falasse sobre o que caracterizaria o
relacionamento do campo religioso com o campo midiático na “sociedade dos
meios” e na “sociedade em midiatização” (FAUSTO NETO, 2008), dois conceitos
muito fortes na sua trajetória de pesquisa.
Fausto:
Bom,
grosso modo, é o seguinte: na “sociedade
dos meios” os meios de comunicação, pela sua organização de seus modos de
produção, da sua sintaxe, tematizavam e exerciam certo controle do
acontecimento religioso, ou seja, o acontecimento religioso era subordinado a
certas leis internas da programação de uma rádio ou de uma televisão. Exemplificando: houve um momento no passado em que a televisão transmitiu o Círio
durante 8 horas porque havia uma simbiose do seu interesse e do interesse do
campo religioso no sentido de reconhecer que aquele acontecimento era central
na vida daquela população. Mas, a partir do momento em que interesses outros de
programação nacional, regional atravessam a vida de uma rádio, de um canal de
TV, a noção de tempo da procissão de oito, seis, cinco horas vira uma hora,
meia hora restringindo-se à cobertura de aspectos centrais como a benção do
bispo ou à entrada do cortejo na igreja etc. Esse momento caracteriza a
centralidade do papel dos meios na organização de grandes eventos públicos.
Evidentemente que esses grandes eventos públicos são atravessados por grandes
cerimoniais de fundo, conforme bem disse o Daniel Dayan (1992, 1999) quando ele
estuda acontecimentos que são televisionados, que, segundo ele, se
baseiam em rituais profundos em termos de representação simbólica por parte da
história da sociedade humana. Na medida em que a sociedade exacerba o
funcionamento de tecnologias convertidas em meios e isso atravessa todas as
práticas sociais, inclusive a religiosa, o campo institucional midiático não
desaparece, mas deixa de ter uma centralidade porque o acontecimento está na
mão de todo mundo, tanto das fontes produtoras religiosas, que passam a ter
todos os dispositivos para produzí-lo, quanto dos atores sociais que têm
internet, que têm celular, whatsapp, facebook, twitter. Então, sai-se de uma centralidade de transmissão midiática
para uma pluriversidade de transmissões que se fazem de acordo com regimes,
motivações e interesses de cada cidadão. Há, claro, um acontecimento “jurídico”,
sociológico que se faz naquela semana e, especificamente, naquela procissão,
mas o modo de “desenhar” sua existência sai da mão de peritos, de mediadores
que tinham a responsabilidade central no modo de narrá-lo, de anunciá-lo, de
comentá-lo e passa para as mãos de todos que podem com o acesso às tecnologias,
construir as suas enunciações...
MRS:
Podemos
dizer que se sai de uma lógica transmissiva para se entrar em uma lógica de
compartilhamento?
Fausto:
de
compartilhamento nesse sentido de que todos os agentes tem acesso a
dispositivos midiáticos que antes estavam nas mãos apenas dos peritos da mídia.
É isso que caracterizaria o acontecimento nessa sociedade em midiatização.
Contudo, não se quer dizer que não haja rusgas muito importantes que apontam
para tensionamentos, recuos, resistências a esses fenômenos. Existem tensões nesses
acontecimentos, modos de redesenhar o ritual religioso strictu sensu no sentido de fazê-lo circular à deriva dessas
intervenções midiáticas mais contemporâneas. Mas para identificá-los seriam
necessários muitos processos observacionais para capturar os “n” Círios que se
realizam concomitantemente àquela grande procissão, inclusive no interior dela.
Há muitas manifestações que apontam para outros processos de produção de
sentido enquanto marcas de fraturas. Recordo-me no Círio de 2013 duas
manifestações: 1) a tradicional de rua, já incorporada às redes sociais, e (2)
a ela se agregavam dispositivos de captação da procissão que já não se restringiam
mais apenas naquele sistema de rádios, tvs etc e que
se notabilizavam pela presença das celebridades que faziam surgir um co-acontecimento.
Havia um acontecimento que seguia um ritual oficial e microacontecimentos que
se desencadeavam a medida que a procissão passava por esses ambientes, onde
ocorriam esses enlaces momentâneos. Ou seja, nichos de produção periféricos
capturavam-na segundo suas lógicas específicas. Isso reflete um nível de
intervenção de um dispositivo em produção paralelo ou consentâneo se
apropriando da procissão em si. Exemplificando: a procissão se faz por um
percurso que vai do cais até a catedral. Por aí passam 2 milhões de fiéis. Ao
longo desse trajeto instalam-se gabinetes em apartamentos e portarias ocupados
pelas celebridades. E as pessoas param ali, reverenciam esses personagens, toca-se
música, dá-se uma bênção. Isso gera a irritação do bispo que esperava a
procissão chegar enquanto o padre Fábio de Melo, como eu já mencionei, dava
outra bênção e tirava uma selfie. Essas
intervenções são espécies de “fraturas em produção” porque são feitas por
personalidades/ operadores que fazem o ritual circular em outro destino
interpretativo, mas que estão incorporados de alguma forma à produção oficial
do acontecimento. Por isso digo que é uma “fratura em produção”. Observei
também outra fratura distinta da anterior. No centro da procissão há uma corda
(o cisal) que 30 mil promisseiros seguram e protegem durante o trajeto e que
seria dividida entre eles na igreja, segundo acordo feito previamente com as
instâncias oficiais. Desta vez eles se antecipam, cortam a corda e se apropriam
de seus pedaços transformando-os em relíquias. Isso do ponto de vista da
antropologia simbólica é uma espécie de ruptura com o ritual sobre o qual
funciona esta manifestação do ponto de vista da sua lógica
de produção e ao mesmo tempo um “redesenho” do seu processo de significação. É
preciso que haja uma ruptura para que ele seja ressimbolizado. Os indivíduos
redesenham esta organização dando a ela outra significação segundo um ato que
passa por eles mesmos, por uma ação técnico-simbólica dos atores sociais.
MRS:
um
ato que acontecia à revelia das prescrições institucionais...
Fausto:
sim!
A previsão era de que este corte aconteceria apenas no final quando a procissão
chegasse até o bispo, e a corda, então, consagrada pelo seu ritual de origem,
fosse dividida entre os fiéis. Esta antecipação por parte dos promisseiros foi
muito mal vista, muito mal compreendida. Ela foi lida como um desrespeito, como
uma afronta porque a lógica procissão foi traçada por um postulado de
racionalidade definido pelos campos sociais que ofertavam que este
acontecimento. Então, nesta atitude os atores sociais rompem com o ritual e dão
outra significação. Isso está detalhado no texto “Círio de Nazaré: celebrações,
divergências e rupturas” (FAUSTO NETO, 2013).
* Para ler a primeira parte da entrevista clique <<<aqui>>>.
* Para ler a primeira parte da entrevista clique <<<aqui>>>.
Textos
Citados nas partes 1 e 2 da entrevista
ASSMANN, Hugo. A
Igreja Eletrônica e seu impacto na América Latina. Petrópolis (RJ): Vozes,
1986.
ECO, Umberto. Viagem
na Irrealidade Cotidiana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
DAYAN, Daniel & KATZ, Elihu. A história em
directo. Os acontecimentos mediáticos na televisão. Coimbra: Minerva, 1999.
DAYAN, Daniel e
KATZ, Elihu. Media events: the live broadcasting of history. Cambridge,
MA: Harvard University Press, 1992.
FAUSTO NETO, Antônio.
Religião do contato: estratégias dos novos "templos midiáticos". In:
Emquestão –Revista da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da
UFRGS. Porto Alegre, RS: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Vol. 2, n
1(jan./jun 2003), p. 163-182.
_____, Antônio. Fragmentos de uma analítica da
midiatização. In: Revista Matrizes, nº 2, Abril, 2008
–pp 89-105
_____, Antonio. Círio de
Nazaré: celebrações, divergências e rupturas. In: Netília Silva dos Anjos
Seixas; Alda Cristina Costa; Luciana Miranda Costa. (Org.). Comunicação:
visualidades e diversidades na Amazônia. 1ed.Belém: FADESP, 2013, v. 1, p.
27-50.
GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 18º
ed. Petrópolis: Vozes, 2011.
HARTMANN,
Attilio Ignacio. Religiosidade e mídia eletrônica: a mediação
sócio-cultural-religiosa e a produção de sentido na recepção de tv. São Paulo,
2000. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) – ECA-USP.
Sobre o autor
Antônio Fausto Neto é pós-doutor em Comunicação pela UFRJ, doutor em Comunicação pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS) da França, mestre em Comunicação pela Universidade Nacional de Brasília (UNB) e graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Atualmente é professor titular do programa de pós-graduação em Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Interessa-se por temas relacionados a Jornalismo, Discurso, Noticiabilidade, Estratégias Midiáticas e Midiatização, tendo também já estudado objetos que envolvem religião, discurso e mídia, especialmente no âmbito televisivo.
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Sobre o autor
Antônio Fausto Neto é pós-doutor em Comunicação pela UFRJ, doutor em Comunicação pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS) da França, mestre em Comunicação pela Universidade Nacional de Brasília (UNB) e graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Atualmente é professor titular do programa de pós-graduação em Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Interessa-se por temas relacionados a Jornalismo, Discurso, Noticiabilidade, Estratégias Midiáticas e Midiatização, tendo também já estudado objetos que envolvem religião, discurso e mídia, especialmente no âmbito televisivo.
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domingo, 19 de junho de 2016
AS NARRATIVAS DO REINO: Análise narrativa de programas televisivos da Igreja Universal nas madrugadas mineiras
Marco Túlio de Sousa
RESUMO
Este trabalho trata das narrativas religioso - midiáticas da Igreja Universal do Reino de Deus na Programação IURD mineira, que corresponde a um conjunto de programas televisivos veiculados diariamente pela Record Minas durante as madrugadas. Como recorte, escolhemos algumas edições do mês de julho de 2012, quando a igreja completou 35 anos de existência. Para desenvolver a análise, propomos uma triangulação teórica que contempla os conceitos de dispositivo, narrativa e experiência procurando perceber como estes se afetam mutuamente e se constituem nas suas interconexões. Tendo em vista este aparato conceitual, nosso objetivo consiste em olhar para a Programação IURD procurando identificar nos mundos que suas narrativas deixam ver possíveis pontos de força, de tensão, aspectos que ganham visibilidade, silenciamentos que emergem, bem como o público que se imagina atingir com as mesmas. Dessa forma, também pretendemos analisar o modo como a Universal se narra e por esta mediação narrativa se relaciona com os espectadores e com outros setores da sociedade.
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quinta-feira, 16 de junho de 2016
CANTAR PARA QUÊ? A música gospel no processo de midiatização: o caso do programa Esquenta!
Jênifer Rosa de Oliveira
RESUMO
Esta pesquisa tem por objetivo analisar sob quais aspectos se dá a interação entre mídia e religião, bem como as tensões ou continuidades que a aproximação do ‘sagrado’ com o ‘profano’ na sociedade midiatizada evoca. Para tal, elegemos como objeto de estudo a participação dos artistas evangélicos no Programa Esquenta!, exibido nas tardes de domingo, pela Rede Globo. Tomamos como referencial teórico os conceitos de cultura gospel, de midiatização, especialmente o conceito de bios midiático, e a discussão sobre secularização proposta por Habermas. A metodologia empregada prevê duas etapas. A primeira consiste numa uma análise de conteúdo de cinco edições do programa que contaram com a participação de artistas evangélicos, exibidas nos anos de 2013 e 2014. Nesse momento, o objetivo foi perceber o lugar que a música gospel ocupa dentro da proposta do programa. A segunda etapa consiste na realização de dois grupos de discussão, um formado por evangélicos e o outro por não-evangélicos, para compreender como os conteúdos religiosos deslocados de seu contexto original são ressignificados pela audiência. Resulta desta pesquisa a observação de que a participação dos artistas gospel no Esquenta! oferece novos modos de olhar que ampliam o conceito de cultura gospel, bem como legitima a mídia como lugar de experiência religiosa. Além disso, ilustra a perspectiva habermasiana ao refletir a dupla afetação entre universo religioso e vida secular, que emerge do entrecruzamento entre mídia e religião.
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terça-feira, 14 de junho de 2016
O Divino Pai Eterno na Sociedade em Midiatização: a (re) configuração das práticas religiosas pela TV
Paulo Afonso Tavares
RESUMO
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