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domingo, 21 de agosto de 2016

Decifra-me ou te devoro: os desafios das igrejas na sociedade em midiatização – Entrevista com Pedro Gilberto Gomes

22/08/2016
Por Marco Túlio de Sousa
Doutorando em Comunicação (Unisinos) 

Professor Dr. Pedro Gilberto Gomes da Unisinos.
A segunda entrevista do Mídia, Religião e Sociedade é com o pesquisador Dr. Pedro GilbertoGomes, docente do programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e pró-reitor Acadêmico na mesma universidade. Na entrevista concedida a Marco Túlio de Sousa, administrador deste blog, o professor falou dos conceitos de “igreja eletrônica” e “midiatização” e destacou a importância de pesquisadores e instituições religiosas compreenderem o que significa hoje estar na mídia hoje.


Mídia, Religião e Sociedade (MRS): Em seu livro “Da Igreja Eletrônica à sociedade em midiatização” (GOMES, 2010) o senhor traz o conceito de “igreja eletrônica” para falar em um primeiro momento dos televangelistas americanos e depois propõe pensar esta problemática que envolve mídia e religião por meio do conceito de “midiatização”. Para o senhor o conceito de “igreja eletrônica” é produtivo para pensar apenas aquela dinâmica inicial ou desde sempre ele já mostrou insuficiente para dar conta deste fenômeno? 

Pedro Gilberto Gomes: Veja, nem uma coisa nem outra, no meu entendimento, se a gente olha o que está na raiz dos televangelistas norte americanos nós encontramos um histórico que os liga aos revivals que vem desde a época do faroeste. Basicamente, de tempos em tempos surgia um grande pregador nos EUA que percorria o país de cidade em cidade, com grandes tendas armadas, para fazer aquele reavivamento moral. Posteriormente, esse reavivamento veio a acontecer no radio, com os grandes pregadores, dentre eles o Billy Graham, que era batista, e o Fulton Sheen, do lado católico. Já os televangelistas, aqueles que eu faço uma resenha no livro, levam isto para a TV. E aí é que vem o conceito de “igreja eletrônica”. Eles criam, eles trabalham com uma igreja cuja base é a televisão. Muitos começam na televisão, depois constroem uma catedral, criam universidades, hospitais e quando chegam a criar um canal próprio de televisão quebram. Mas eles não são uma igreja no sentido estrito, como nós conhecemos (com templos e pastores espalhados em vários lugares etc). Muitos até estavam em uma religião tradicional, batista, metodista, por exemplo, tinham uma iluminação e começavam a pregar na televisão. Com o tempo ficavam mais famosos que a própria igreja e se separavam dela, fundando a sua própria, que era a “igreja eletrônica”. Então, nesse conceito a Universal não pode ser considerada uma igreja eletrônica. Por quê? Porque se tu vais de norte a sul do Brasil ou nos países onde ela está, ela tem templos espalhados. O central dela não é, como para os televangelistas norteamericanos, a comunidade como igreja eletrônica. Então, esse conceito explica aquele momento e ajuda a pensar. Quando eu levo para a discussão de ”midiatização” para explicar essa relação mídia e religião é porque eu começo a perceber que nessa realidade de uma sociedade em midiatização, neste novo ambiente que se estabelece, o modo de fazer religião muda.

MRS: E quanto ao envolvimento das instituições religiosas, especificamente da Igreja Católica, como o senhor vê essa relação?

Pedro Gilberto Gomes: Bom, antes de trabalhar nessa questão da midiatização, eu publiquei um artigo que saiu na revista Perspectiva Teológica que se chamava “Decifra-me ou te Devoro”, em que falava da Igreja Católica e que se nós não decifrássemos esse enigma de estar presente nos grandes meios (que naquele contexto era a televisão) seríamos devorados por eles. O título foi uma analogia na qual a mídia é o primeiro anel do livro Senhor dos Anéis, do Tolkien. Se alguém achava que poderia usar o poder do anel para fazer qualquer coisa era engolfado pelo poder dele, já que ele obedecia ao Sauron. E se tu vês no final, o anel só foi destruído por um acidente, senão ele não teria sido destruído. E olha que o Frodo não queria usar o anel. Ele foi lá pra destruir o anel e mesmo assim o anel o pegou. Quer dizer, a mídia é como esse primeiro anel de Tolkien porque se eu não a decifro sou destruído por ela. Tenho que estar na televisão, mas preciso analisar o que significa isso, que tipo de religião se está criando. Por exemplo, o padre Marcelo estruturou sua vida em torno da televisão e acho que ele não a decifrou corretamente, tanto que ele foi engolido por ela. Hoje se olhares a televisão, ele está pouco lá. E muitas vezes quando ele aparece é para falarem que ele está magro etc. Não é mais aquele padre que está na televisão, celebrando a missa cantando e dançando. Agora existem outros.

MRS: e as demais igrejas? Decifraram esse enigma?

Pedro Gilberto Gomes: Não, ainda estão engatinhando. O grande problema é que as igrejas se colocam ainda como se estivessem em uma “sociedade dos meios” (FAUSTO NETO, 2008), achando que os meios não são outra coisa que canais para passar a sua mensagem. Então eu posso entrar e, claro, em vez de falar para um grupinho de 12 pessoas, agora, com a internet, eu falo para milhões de pessoas, eu passo a minha mensagem. Não é assim, existem normas, existem regras, existem dinâmicas próprias das mídias que são diferentes das normas da religião e eu tenho que fazer concessões. Por exemplo, aqui no Rio Grande do Sul os capuchinhos venderam um canal de TV para Bandeirantes, que por um tempo continuou a transmitir a missa. O encarregado era o frei Renato Zanola e a primeira coisa que a emissora colocou como condição era que ele usasse o hábito na hora de rezar a missa. Mas eu nunca o vi de hábito. Isso foi uma foi uma concessão que ele teve de fazer ao espetáculo. Essas coisas é que a igreja não está se dando conta. Daí a pergunta que eu faço a partir do Hoover: eu não tenho que perguntar o que a religião faz com os meios, mas que religião está surgindo deles? A mídia em geral cria novas condições de relacionamento entre as pessoas. Então nesse sentido, se muda o modo de ser religioso. Por exemplo, pega o site [da basílica] de Aparecida, o A12. Lá tu podes colocar uma vela para Nossa Senhora e definir até a duração dela. Existe a possibilidade de fazer uma visita guiada ao santuário. E nessa visita guiada tu vês a imagem original de Aparecida com muito mais riqueza, com muito mais facilidade do que se for lá.

MRS: Este é um ponto interessante porque muitas vezes se tem essa percepção, inclusive na academia, de que a experiência religiosa nessa ambiência é sempre de baixa qualidade, inferior se compararmos com aquela vivenciada no templo. Então, parece que a questão não é bem essa...

Pedro Gilberto Gomes: é qualitativamente diferente, é outra coisa. Eu vou te dar o exemplo de uma tese defendida no programa [de pós-graduação em Comunicação da Unisinos] sobre missa televisiva. O Domingos Volney Nandi fez uma pesquisa quantitativa com dados de quem assistia as missas do padre Marcelo Rossi. Depois fez uma pesquisa qualitativa, com grupos focais. Nessa fase ele pegou uma missa do padre Marcelo e nos momentos em que aparecia o povo cantando substituiu pelas imagens da plateia do Faustão. Ninguém percebeu que não era o mesmo público. Aí ele se perguntou: o que está havendo? É um novo modo de ser mostrando também que no caso da televisão existem regras e dos processos televisivos aos quais eu tenho de fazer concessão. E quando eu faço concessão a essas regras, eu mudo o modo de ser religioso, eu mudo o modo de ser igreja, eu mudo o modo de ser em sociedade. Em outro trabalho sobre o site da Canção Nova mesma coisa. Se não se fala em Nossa Senhora, ninguém diferencia este do site do Edir Macedo. Não há diferença.

MRS: então essa nova ambiência acaba, de algum modo, aproximando as instituições do ponto de vista de suas performances?

Pedro Gilberto Gomes: Sim. O conteúdo dentro desses meios se torna secundário, porque o que muda é o modo de relacionar. No site da Canção Nova tem missa, tem participação, pedido de oração, conselho. No caso do Edir Macedo não vai ter a missa, mas o culto, tem a pergunta para ele, pedido de oração, as manifestações etc. A questão não é de conteúdo é o modo de ser, como acostumo a assistir a missa, a fazer a oração diante do site, a conversar via site, a ouvir as respostas de oração, acender velas em ambiente virtual etc.

MRS: Bom, mesmo com essas semelhanças nós percebemos que a igreja católica e as igrejas protestantes tradicionais inicialmente apresentaram mais dificuldades pra poder se inserir e ocupar esses espaços na mídia. Enquanto isso igrejas evangélicas pentecostais despontaram com produções em todas as mídias. A que o senhor atribui isso?

Pedro Gilberto Gomes: a grande maioria das igrejas evangélicas pentecostais já nasceu sob o signo da televisão. Elas apenas entraram na corrente. E assim como entraram na televisão, também fizeram o mesmo nas redes sociais. A história dessas igrejas é uma história recente. Portanto, elas não têm nenhuma preocupação, nenhum compromisso com uma tradição. Não têm o peso da história. As igrejas históricas, tanto a católica quanto a luterana, ortodoxa, etc, todas essas igrejas têm uma tradição. Quando o rádio, a televisão e as redes sociais chegaram, elas já tinham uma história. O que está por trás dessas igrejas ainda é o conteúdo, o importante é o conteúdo. Para elas os meios de comunicação são instrumentos para que se expanda cada vez mais a Palavra, porque a palavra é que é importante, o conteúdo da mensagem é que é importante. As igrejas mais modernas [neopentecostais] já nasceram sob o signo da transitoriedade, percebendo que o importante é o parecer, o espetáculo. Eu voltaria a dizer pra ti o seguinte: toda essa situação está lançando para as igrejas históricas um enigma que deve ser decifrado. Ou elas decifram, ou serão devoradas. Ok?

Textos citados na entrevista



GOMES, P. G.. Da Igreja Eletrônica à sociedade em midiatização. São Paulo: Paulinas, 2010.



NANDI, Domingos Volney. Missa Catódica. O (des) encontro de suas lógicas no processo de midiatização da ritualidade da Celebração Eucarística. 2005. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) - Universidade do Vale do Rio dos Sinos. 

Sobre o autor
Possui graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1973), especialista em Teologia pela Pontificia Universidad Católica de Santiago, mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (1987) e doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (1991). Atualmente é professor titular da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Jornalismo e Editoração, atuando principalmente nos seguintes temas: comunicação, comunicação cristã, comunicação, cultura e mídia. Membro do Conselho de Ciência, Tecnologia e Inovação do Rio Grande do Sul, membro do Conselho Superior da CIENTEC do Rio Grande do Sul e membro do Conselho Superior do CETA/SENAI e do CNTL/Ceta/Senai. Membro do Conselho Superior da FAPERGS (Fundação de Amparo à Pesquisa do estado do Rio Grande do Sul. Exerce o cargo de Pró-Reitor Acadêmico da Unisinos e é Diretor da Editora da mesma Universidade. 

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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Processo de midiatização: da sociedade à Igreja. Entrevista com Pedro Gilberto Gomes

Entrevista publicada primeiramente pela IHU-Online no dia 19 de outubro de 2007. 
“A midiatização está, talvez, configurando a possibilidade da busca de uma visão unificada da sociedade. A estruturação de uma visão totalizante não mais se dá mediante a reflexão e o pensamento, mas através da prática glo(tri)balizante”, é o que afirma Padre Pedro Gilberto Gomes em entrevista, que segue, à IHU On-Line, feita por e-mail, sobre seu artigo “O processo de midiatização da sociedade”. No texto, Pe. Pedro analisa este processo a partir da relação entre mídia e religião, que é seu objeto de pesquisa, fazendo referência às teorias de Mcluhan e Teillhard de Chardin. “Aceitar a midiatização como um novo modo de ser no mundo põe-nos numa nova ambiência que, mesmo que tenha fundamento no processo até agora desenvolvido, significa um salto qualitativo no modo de construir sentido social e pessoal”, afirma Pe. Pedro.
Pedro Gilberto Gomes, padre jesuíta, é formado em Filosofia, pela PUCRS e em teologia pelo Colégio Máximo Cristo Rei-Unisinos. Ele tem especialização em Teologia, pela PUC de Santiago, no Chile. Ele é mestre  e doutor em Comunicação, pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, é professor e pesquisador do PPG em Comunicação e pró-reitor acadêmico da Unisinos. É autor de diversas obras, tais como Televisão, escola e juventude (Porto Alegre: Mediação, 2001); Tópicos de Teoria da Comunicação. Processos midiáticos em debate (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2004); eFilosofia e ética da comunicação na midiatização da sociedade (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2006).
Eis a entrevista.
IHU On-Line - O senhor fala, no artigo"O processo de midiatização da sociedade", que está surgindo um bios-virtual representado pela midiatização da sociedade. De que forma a Igreja não acompanhou tal fenômeno?
Pedro Gilberto Gomes - As Igrejas em geral, e a Igreja Católica em particular, têm uma visão muito clara de sua missão: o anúncio da Boa Notícia de Jesus Cristo a todos os povos. Para cumprir essa missão, lançam mão de todos os instrumentos lícitos. Como a pregação é o fundamental, tudo o mais está a ela subordinado. No caso moderno, o importante é utilizar todos os instrumentos para fazer chegar a voz da Igreja a todos os rincões do mundo. Desse modo, à medida que os meios de comunicação foram se desenvolvendo, a Igreja foi se apropriando desses dispositivos tecnológicos como extensões de sua voz, imagem e ação.
Portanto, a Igreja acompanhou o desenvolvimento tecnológico. Hoje, rádio, televisão, internet, sites, estão presentes na vida da Igreja, desde a mais humilde paróquia até o Vaticano. No Brasil, a Igreja Católica, em termos de televisão, possui quatro redes nacionais, por exemplo. Sua rede de emissoras de rádio é considerável. A telemática, o satélite, os computadores estão integrando todos os níveis da comunidade eclesial. Esse não é o problema. O que a Igreja não acompanhou foi a reflexão sobre esse fenômeno que transcende os meros dispositivos tecnológicos e aponta para a constituição de uma nova ambiência da sociedade. A Igreja não discute as conseqüências para ela do uso indiscriminado da mídia como se essa fosse neutra. Existem leis e processos que distinguem, substancialmente, o espaço religioso do espaço midiático. O problema não é o que a religião faz com a mídia, mas que tipo de religião está emergindo da mídia. A Igreja não se deu conta de que uma nova ambiência está surgindo e colocando-lhe questões cruciais nesse início de milênio.
IHU On-Line - A tecnocultura pode, de certa forma, estar fragmentando a informação, uma vez que as pessoas acessam, ao mesmo tempo, inúmeras, notícias, ouvem música, assistem a um vídeo e postam seus comentários em blogs e afins?
Pedro Gilberto Gomes - Não diria assim. A questão da fragmentação da informação não está no acesso simultâneo de vários instrumentos. Na televisão, por exemplo, existem pessoas que se dão muito bem com o zapping, sem, com isso, perder o fio da meada. O que a tecnocultura está ocasionando é uma mudança no modelo mental das pessoas. Isso é mais patente nas crianças e adolescentes. Em certa medida, a fragmentação está relacionada com uma posição política e de poder sobre a informação. Nesse particular, a diversificação dos dispositivos tecnológicos de comunicação favorece o acesso plural à informação.
IHU On-Line - Muniz Sodré afirma que antes da midiatização da sociedade só Deus tinha o poder imediato, global e instantâneo. De alguma forma, a mídia dá "poder" às pessoas e as afasta da sua comunidade, da sua Igreja, ou seja, daquilo que antes era o seu emissor de informação?
Pedro Gilberto Gomes - Não compartilho com essa idéia, muito embora reconheça que ela está presente no imaginário de muitos membros da Igreja. Entretanto, quem assume tal posição demonstra estar ainda na antiga ambiência e não semantiza corretamente a realidade contemporânea. A sua gramática não acompanhou a virada do milênio.
IHU On-Line - Com o avanço tecnológico em expansão rápida e quase inalcançável, como o senhor definiria, hoje, o processo de midiatização da sociedade?
Pedro Gilberto Gomes - Os dispositivos tecnológicos, tão importantes, são apenas uma pequena parte, a ponta visível do iceberg, de um novo mundo estruturado pelo processo de midiatização da sociedade. Estamos vivendo hoje uma mudança de época, um câmbio epocal, uma nova inflexão, com a criação de um bios midiático que toca profundamente o tecido social. Surge uma nova ecologia comunicacional (1). É um bios virtual. Entendo que muito mais que uma tecno-interação, está surgindo um novo modo de ser no mundo representado pela midiatização da sociedade.
Fazendo referência ao pensamento de Marshall McLuhan (2), que divide a história da humanidade como um processo que parte da tribalização até a retribalização, passando pela destribalização (3), podemos dizer que a midiatização nos coloca numa outra galáxia que supera a chamada Aldeia Global. É um processo mais avançado do que uma simples retribalização.A Galáxia midiática (ou midiatizada) cria o fenômeno de uma glo(tri)balização.
Se avançarmos e ousarmos um pouco mais na reflexão, podemos afirmar que a midiatização está, talvez, configurando a possibilidade da busca de uma visão unificada da sociedade. A estruturação de uma visão totalizante não mais se dá mediante a reflexão e o pensamento, mas através da prática glo(tri)balizante.
IHU On-Line - Como Teilhard de Chardin e Marshall Mcluhan se relacionam para que possamos entender este processo de midiatização da sociedade contemporâneo?
Pedro Gilberto Gomes - De fato, sobre o processo de unificação, resultado da midiatização da sociedade, nós nos valemos de alguns pensamentos buscados em Teilhard de Chardin (4). Este pensador francês postula um processo de unificação da humanidade. Para ele, a história é um contínuo processo de unificação rumo à planetização da sociedade.
É possível encontrar pontos do pensamento de Teilhard de Chardin que o colocam na base das idéias de Marshall McLuhan, outro pensador seminal para se compreender o que se passa no mundo hoje. Tom Wolfe (5), falando deMcLuhan, diz: “Aqui vemos a sombra de uma intrigante figura que influenciou McLuhan tanto quanto Harold Innis, mas a quem ele nunca se referiu de maneira explícita: Pierre Teilhard de Chardin”.
Explicitando algo do pensamento do jesuíta francês, afirma que, para ele, Teilhard, “Deus estava dirigindo, nesse exato momento, o século XX, a evolução do homem para a noosfera (...) uma unificação de todos os sistemas nervosos humanos, todas as almas humanas, por meio da tecnologia”.
Constata, outrossim, que o jesuíta francês “Menciona o rádio, a televisão e os computadores em especial com pormenores consideráveis, e alude à cibernética. (...)”. Esta tecnologia estava criando um “sistema nervoso para a humanidade”, escreveu ele, “uma membrana única, organizada, inteiriça sobre a terra”, “uma estupenda máquina pensante”. (...)”.  “A era da civilização terminou”, e a da “civilização unificada está começando”.
Wolfe identifica a noosfera, a membrana inteiriça com a rede inconsútil de McLuhan. Para ele, a civilização unificada não é outra coisa que a aldeia global de pensador canadense. Ainda citando Teilhard, Wolfe constata: “Podemos pensar, escreveuTeilhard, que essas tecnologias são ‘artificiais’ e completamente ‘exteriores aos nossos corpos’, mas na realidade elas são parte da evolução ‘natural, profunda’, do nosso sistema nervoso”. “Podemos pensar que estamos apenas nos divertindo”, ao usá-las, “ou apenas desenvolvendo o nosso comércio, ou apenas propagando idéias. Na realidade, o que estamos fazendo é nada menos do que continuar num plano superior, por outros meios, a obra ininterrupta da evolução biológica”. E Wolfecompleta que, para dizer de outro modo, “O meio é a mensagem”. Não interessa aqui discutir por que McLuhan nunca reconheceu explicitamente a dívida conceitual com Teilhard de Chardin (6). O que importa, nesse momento, é reconhecer os pontos que unem esses dois pensadores importantes para o século XX.
IHU On-Line - O que seria o que o senhor chama de ecologia comunicacional e qual é a sua relação com a midiatização da sociedade atual?
Pedro Gilberto Gomes - A midiatização é a reconfiguração de uma ecologia comunicacional (ou um bios midiático). Torna-se (ousamos dizer, com tudo o que isso implica) um princípio, um modelo e uma atividade de operação de inteligibilidade social. De outra maneira, a midiatização é a chave hermenêutica para a compreensão e interpretação da realidade. Nesse sentido, a sociedade percebe e se percebe a partir do fenômeno da mídia, agora ampliado para além dos dispositivos tecnológicos tradicionais. Por isso, é possível falar da mídia como lócus (7) da compreensão da sociedade.
Aceitar a midiatização como um novo modo de ser no mundo põe-nos numa nova ambiência que, mesmo que tenha fundamento no processo até agora desenvolvido, significa um salto qualitativo no modo de construir sentido social e pessoal. Mesmo que as mediações material e simbólica estejam unidas no processo de midiatização, essa não é um degrau a mais no processo evolutivo, mas um novo qualitativo, síntese na dialética sujeito/objeto. Na sociedade do grande irmão, a tecnologia midiática é uma ambiência que trabalha na construção de sentido, induzindo uma forma de organização social.
Aventamos a hipótese de que a midiatização está para a história da humanidade assim como esteve (e está) a invenção da escrita. Do mesmo modo como não se pode regredir ao período pré-letrado (a não ser se houver um cataclisma universal), também não ser retrocederá a uma era pré-midiatização. Ambas significam um salto no hiper-espaço da evolução humana.
Notas:
(1) As idéias que seguem e embasam a reflexão foram desenvolvidas em: GOMES, Pedro Gilberto. A filosofia e a ética da comunicação no processo de midiatização da sociedade. São Leopoldo: Ed. Unisinos, 2006. Ver, principalmente, o capítulo 6. (Nota do autor)
(2) Herbert Marshall McLuhan foi um filósofo e educador canadense. McLuhan introduz “o impacto sensorial”, “o meio é a mensagem” e “aldeia global” como metáforas para a sociedade contemporânea, ao ponto de se tornarem parte da nossa linguagem do dia-a-dia. Teórico dos meios de comunicação, foi precursor dos estudos midiológicos. Seu foco de interesse não são os efeitos ideológicos dos meios de comunicação sobre as pessoas, mas a interferência deles nas sensações humanas, daí o conceito de "meios de comunicação como extensões do homem" (título de uma de suas obras), ou "prótese técnica". Em outras palavras, a forma de um meio social tem a ver as novas maneiras de percepção instauradas pelas tecnologias da informação. Os próprios meios são a causa e o motivo das estruturas sociais.
(3) Para uma consulta mais ampla ao pensamento de McLuhan, sugerimos a consulta ao nosso trabalho anterior: GOMES, Pedro Gilberto. Tópicos de Teoria da Comunicação. 2. ed.. São Leopoldo: Ed. Unisinos, 2004, p. 114-121. (Nota do autor)
(4) Pierre Teilhard de Chardin, jesuíta francês, morreu em 1955, nos Estados Unidos, está na base do pensamento deHerbert Marshall McLuhan. Sua obra seminal é O fenômeno humano, publicada em Madrid, pela editora Taurus. (Nota do autor)
(5) WOLFE, Tom. “Introdução”. In: MCLUHAN, Marshall. McLuhnan por McLuhan. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. (Nota do autor)
(6) Extra-oficialmente se especula que, tendo em vista que o jesuíta francês estava proibido de ensinar pelas autoridades eclesiásticas e como McLuhan era católico e professor de uma Universidade Católica, este não quisesse ou não pudesse expor-se publicamente comprometido com idéias proibidas. (Nota do autor)
(7) Giovanni Boccia Artieri trata longamente desse tema, colocando a comunicação como lócus de análise da sociedade (In: ARTIERI, Giovanni Boccia. I media-mondo. Roma: Meltemi, 2004). (Nota do autor)
Leia a entrevista de Pedro Gilberto Gomes no IHU-Online clicando <<<aqui>>>.
Confira outros conteúdos relacionados ao autor clicando <<<aqui>>>. 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Decifra-me ou te devoro... Sobre a evangelização e a mídia do ponto de vista da comunicação


Pedro Gilberto Gomes

TRECHO INICIAL

As Igrejas, em geral, e a Igreja Católica em particular, desde o desenvolvimento da mídia eletrônica, finais do século XIX e inícios do século XX, têm se preocupado com o seu aproveitamento para a atividade pastoral. A tradição da Igreja Católica com relação ao uso dos meios de comunicação é muito grande, remontando-se à imprensa escrita. Entretanto, desde o aparecimento do rádio, na década de 20, ela vem lutando para dimensionar corretamente a sua relação com a mídia eletrônica. Se, de uma maneira geral, a técnica da mídia impressa foi por ela dominada, o mesmo não se pode dizer no que se refere à eletrônica, notadamente, o rádio e a televisão. Por isso, hoje, nos umbrais
do Terceiro Milênio, a Igreja Católica ainda se debate numa relação de amor e ódio com os meios eletrônicos de comunicação.

Nosso objetivo nesse trabalho é refletir sobre essa relação, procurando identificar quais os problemas e qual a concepção que norteia a Igreja Católica no uso dos meios de comunicação, bem como os desafios que a relação entre evangelização e mídia coloca para quem se dedica à pastoral da comunicação.

Leia o trabalho online clicando <<<aqui>>>.

Confira outros textos de Pedro Gilberto Gomes publicados no Mídia, Religião e Sociedade clicando <<<aqui>>>.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

VÍDEO: Pe Pedro Gilberto Gomes fala sobre Mídia e Religião

Nesta curta entrevista concedida à então do doutorando em Comunicação Corine Prevedello o padre Pedro Gilberto Gomes, doutor e mestre em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), fala da relação entre mídia e religião.

Clique <<<aqui>>> e assista.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

LIVRO: Mídias e Religiões: A comunicação e a fé em sociedades em midiatização

Hoje divulgamos uma obra fundamental para quem se interessa pelo tema Mídia e Religião. O livro "Mídias e Religiões: A comunicação e a fé em sociedades em midiatização" organizado por Dr Pedro Gilberto Gomes, Dr Antonio Fausto Neto, pelo mestre e doutorando em Comunicação Moisés Sbardelotto e pela mestre em Comunicação Thamiris Magalhães de Souza reúne os textos apresentados durante a I Jornada de Mídias e Religiões realizada em São Leopoldo (RS) na Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS). É uma ótima oportunidade para conhecer mais sobre as pesquisas que tem sido feitas sobre o tema.

O livro pode ser comprado online (Saraiva, Cultura, Amazon etc).

Confira abaixo o sumário com os textos:




SUMÁRIO

Prefácio: O caleidoscópio midiático
Pe. Pedro Gilberto Gomes, sj

O mistério da Igreja na era das mídias digitais
Antonio Spadaro S.I.

Parte 1: Ambiente Digital e Religiões

Devoção em Caracteres: As Redes de Relacionamento religiosas como fenômeno de midiatização: análise do discurso nas mídias do Círio de Nazaré, em Belém do Pará
Thamiris Magalhães de Sousa

Federação de redes e mídias sociais virtuais, sistema de informação para a comunicação da Pastoral da Juventude
Jean José Fortes Bianchi e Carla de Almeida Martins Basso

A página de Irmã Zuleide no Facebook: considerações sobre o cenário religioso brasileiro a partir de um fake
Vítor de Lima Campanha

Canção na web: a instituição religiosa regulando-se na circulação em dispositivos midiáticos
Lucas Brito de Barros

A lógica do desdobramento: processualidades da midiatização no portal cancaonova.com
Ana Cássia Pandolfo Flores

Mídia e religião: dispositivos em conexão: A reconfiguração da experiência religiosa no mundo digital
Marco Túlio de Sousa

Tensões e Disputas Discursivas Evangélicas nas Redes Sociais: As Performances de Edir Macedo, R.R. Soares e Silas Malafaia
Francieli Jordão Fantoni

Midiamorfose da fé: Continuidades e transformações da religiosidade na internet
Moisés Sbardelotto

Fiéis enredados: Para a criação de redes digitais de reconhecimento religioso
Luis Ignacio Sierra Gutiérrez

A Ciber-Religião: A midiatização do sagrado e a sacralização da mídia
Jorge Miklos

Parte 2: Culturas, Sociedades e Religiões

A afetação da memória coletiva do Batuque com a gravação dos cantos sagrados
Deivison Moacir Cezar de Campos

Documentário Saravá Irmãos: a participação infantil na religião umbanda
Joana Frota, Lara Fagundes e Renata Camargo

A formação do campo ayahuasqueiro uruguaio, meios de comunicação e subjetividades
Juan Scuro

Neuroteologia: sobre o encontro entre fé, ciência e mídia hoje
Leandro de Paula Santos

O pluralismo religioso. Influências na cultura e no imaginário contemporâneo como elementos persuasivos: Percepção sobre os padres cantores
Maria Beatriz Furtado Rahde e Luciana Braun Reis

A recepção do Padre Fábio de Melo por seus fãs/devotos
Carlos Henrique Corrêa Senna

“Caleidoscópio da fé”: A produção de sentido no “gospel” midiatizado pela música pentecostal
Valdevino de Albuquerque Júnior

O sermão luterano na visão do receptor: Um estudo da Comunidade Evangélica Luterana São Paulo de Canoas
Lucas André Albrecht

Parte 3: Imagens e Religiões

O Livro de Eli: mídia e religião vivida como tarefa da teologia prática
Júlio Cézar Adam

Mídia e Religião:Das peregrinações ao universo das telecomunicações
Sidnei Budke

A gente se liga em você: panorama reflexivo sobre identidades na mídia - Festival Promessas da Rede Globo
Augusto Rodrigues Parada

Fé na mídia: um estudo das imagens técnicas (TV Record) como estratégia de comunicação e sobrevivência da Igreja Universal do Reino de Deus
Heinrich Fonteles

A Experiência religiosa eucarística do numinoso e o seu acontecimento através da mídia televisiva
Celeide Agapito Valadares Nogueira

Parte 4: Imprensa, Jornalismo e Religiões

Apontamentos para uma História da Imprensa Católica Brasileira
Aline Roes Dalmolin

Jornalismo, Evangelização e Cidadania
Beatriz Trezzi Vieira

Igreja em mediação: a atuação de jornalistas nas (Arqui)Dioceses do Brasil
Paulo Vitor Giraldi Pires e Maria Cristina Gobbi

Escrita, tipografia e inflexões do simbólico na tradição judaico-cristã
Julio Cesar Lemes de Castro