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domingo, 4 de dezembro de 2016

La religion dans le cyberespace


Nathalie Caron

Resumo
Presque tous les groupes religieux américains ont une visibilité sur le World Wide Web, indépendante de leur importance numérique dans la société. Par ailleurs, une étude récente révèle que 64 % des internautes américains ont utilisé le net à des fins religieuses ou spirituelles. Dans cet article, l’auteure replace l’utilisation des moyens technologiques par les groupes religieux dans une perspective historique de façon à montrer que, loin de représenter une véritable révolution, le recours à l’Internet est la conséquence logique d’une stratégie de communication de masse mise en place dans les colonies par les évangélistes dès le début du dix-huitième siècle. Aujourd’hui, l’Internet favorise l’expression personnelle de la croyance et accompagne, plus qu’il ne crée, les nouvelles pratiques et les nouveaux comportements religieux.

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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Peregrinação, experiência e sentidos: Uma leitura de narrativas sobre o Caminho de Santiago de Compostela


Míriam Cristina Carlos Silva; Tarcyanie Cajueiro Santos

RESUMO

Objetiva-se refletir sobre as possibilidades comunicacionais a partir da experiência da peregrinação, registrada nas narrativas do site da Associação de Confrades e Amigos do Caminho de Santiago de Compostela; assim como investigar o modo como se narram estas experiências, discutindose a produção de sentidos a partir do que é narrado. Pergunta-se: O que dizem estas narrativas? Qual é a importância delas para a experiência da peregrinação? Estas narrativas propiciam pistas sobre o mundo contemporâneo, a experiência da peregrinação, a natureza do narrador, os enredos mais narrados e suas tramas, o leitor ideal esperado e o que se pretende comunicar ao narrar este tipo de experiência.

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domingo, 16 de outubro de 2016

IGREJA CATÓLICA NO MUNDO DIGITAL: As tensões entre discurso e prática da igreja na era da internet e as redes de relacionamento do Círio de Nazaré, em Belém do Pará, como fenômeno de midiatização religiosa


Thamiris Magalhães de Souza

RESUMO

Este trabalho busca analisar os processos de interação entre fiéis e igreja, mais especificamente nas redes de relacionamento da maior procissão católica da América Latina: O Círio de Nossa Senhora de Nazaré, realizado todo segundo domingo de outubro na capital paraense, Belém do Pará. As redes sociais digitais do Círio e dos internautas, mais especificamente o Facebook, são estratégias ainda recentes utilizadas pela igreja para evangelizar, nas chamadas mídias digitais, originárias da web 2.0 e da cibercultura, em uma sociedade em vias de midiatização. Nessas novas plataformas comunicacionais, a religião começa a alterar seus modos de se comunicar, sendo que os fiéis passam a ter papel central e relevante neste novo cenário. Nesta análise, são discutidas que mudanças começam a surgir no discurso e na prática da Igreja Católica Apostólica Romana proporcionadas pela inserção da igreja no mundo digital, bem como as tensões encontradas ao longo deste percurso entre o dizer e o fazer da instituição religiosa. São percebidas, ainda, as divergências encontradas nas opiniões dos próprios padres, com relação ao uso, objetivo e outros detalhes quanto à evangelização no meio digital. Como estudo de caso, são analisados os discursos dos internautas nas mídias digitais do Círio de Nazaré, percebendo se há uma alteração no modo de ser e fazer religião e um novo modo de ser religioso que começa a emergir nas redes de relacionamento da internet, com a crescente midiatização da sociedade.

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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Verso una «cyberteologia»? L’intelligenza della fede nel tempo della Rete


Antonio Spadaro

RESUMO

The intelligence of faith in the era of the Net – The Internet has become part of everyday life for many people, and for this reason it increasingly contributes to the construction of a religious identity of the people of our time, affecting their ability to understand reality, and therefore also to understand faith and their way of living it. The Net and the culture of cyberspace pose new challenges to our ability to formulate and listen to a symbolic language that speaks of possibility and of signs of transcendence in our lives. Perhaps the time has arrived to consider the possibility of a cybertheology also understood as the intelligence faith in the era of the Net. It would be the fruit of faith that releases from itself a cognitive boost at a time in which the logic of the Net influences the way we think, learn, communicate and live.

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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

“E o verbo se fez rede” uma análise da circulação do “católico” em redes comunicacionais online


Moisés Sbardelotto

RESUMO

Com o avanço da midiatização digital, a Igreja Católica e a sociedade em geral desenvolvem novas modalidades de comunicação na internet, em que se constitui uma diversificada e difusa rede de relações entre símbolos, crenças e práticas vinculados ao catolicismo, aqui chamada de “católico”. A partir desse contexto, esta tese analisa como se organizam os processos midiáticos de circulação do “católico” em redes comunicacionais online, que emergem em plataformas sociodigitais, como Facebook e Twitter. A análise se dá por meio de um estudo de casos múltiplos, articulado com gestos de lurking e entrevistas focais semiestruturadas realizadas com responsáveis pela comunicação católica no Vaticano e no Brasil, a partir de um nível suprainstitucional (a conta @Pontifex_pt, no Twitter); um nível institucional vaticano (a página Rádio Vaticano – Programa Brasileiro, no Facebook); um nível socioinstitucional brasileiro (a página Jovens Conectados, no Facebook); e um nível minoritário periférico brasileiro (a página Diversidade Católica, no Facebook). A partir de questões pontuais e proposições, os eixos de articulação e tensionamento teóricos refletem sobre os conceitos de midiatização; midiatização digital; e midiatização digital da religião. Analisam-se, depois, os quatro casos empíricos em torno da circulação do “católico” em rede, a partir das interfaces, protocolos e reconexões observados em cada caso, interpretando criticamente os processos envolvidos na midiatização digital da religião, em três ângulos diferenciados de inferências. Primeiro, no âmbito da midiatização digital, examina-se a emergência de redes comunicacionais online, que articulam circuitos e alimentam o fluxo circulatório. Segundo, no âmbito da circulação midiática em rede, constata-se a emergência de um dispositivo conexial, isto é, um complexo de inter-relações entre processos tecnossimbólicos (interfaces), sociotécnicos (protocolos) e sociossimbólicos (reconexões) que, de forma inter-retroativa, delimitam, condicionam e condensam as práticas religiosas em rede. Em terceiro lugar, no âmbito da reconstrução do “católico”, aponta-se para a emergência de um novo interagente comunicacional, o “leigo-amador”, e de heresias comunicacionais, mediante as quais se dá a invenção/produção de algo novo (construção) e a experimentação/transformação de algo já existente (desconstrução) em torno do catolicismo. Como conclusão, pondera-se sobre o surgimento de uma “religião (em) comum”, marcada por um saber-fazer e por um poder-fazer simbólico-religiosos compartilhados comunicacionalmente para a promoção de experiências; o estabelecimento de crenças; e a configuração de práticas religiosas nas sociedades contemporâneas.

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terça-feira, 26 de julho de 2016

A Igreja Católica e a difusão da fé na hipermodernidade: o exemplo do mass media e as online communities

Jefferson Rodrigues de Oliveira

RESUMO
O presente artigo, inserido nos estudos da geografia cultural pós-80, onde os aspectos simbólicos e os bens imateriais também são analisados, tem por objetivo apresentar uma discussão a partir das relações entre geografia e religião. A ótica do sagrado a ser analisada, procura tomar por base as estratégias de difusão da fé, realizadas pela Igreja Católica Apostólica Romana em seus diferentes movimentos eclesiais, em especial a Renovação Carismática Católica – RCC, para continuar mantendo seu poderio frente ao crescimento de outras doutrinas religiosas, assim como, o crescente processo na sociedade contemporânea da hipermodernidade.

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segunda-feira, 18 de julho de 2016

Cibergraça: fé, evangelização e comunhão nos tempos da rede


Aline Amaro da Silva

RESUMO

A presente dissertação examina os efeitos da invenção da internet na teologia e sociedade, definindo o que é ciberteologia a fim de descobrir qual sua contribuição para melhor compreender e inter-relacionar a cultura, a fé e o ser humano contemporâneo. Delimita-se o tema em cibergraça, entendida como a comunhão entre as pessoas nos tempos da rede. Primeiro, apreende-se o ciberespaço como um lugar profundamente antropológico onde se pode refletir teologicamente. O estudo também busca verificar como a rede afeta ou potencializa a relação de comunhão entre as pessoas, em especial com a juventude, público predominante no ciberespaço. Além disso, analisa o valor eclesiológico da internet na missão de evangelizar todos os povos, construindo a relação entre evangelização e comunhão na era digital. O trabalho utiliza basicamente os métodos de pesquisa exploratória, bibliográfica e documental. A dissertação se fundamenta principalmente nas obras e artigos de Antonio Spadaro, autor do livro e do campo teológico “Ciberteologia”, pano de fundo deste estudo. Para fundamentar a análise sociológica e cibercultural do primeiro capítulo, faz-se uso de autores como Manuel Castells, Pierre Lévy e André Lemos. Na teologia trinitária destaca-se a contribuição de Gisbert Greshake e John Zizioulas. Também o trabalho se inspira no pensamento científico-teológico de Teilhard de Chardin seja diretamente ou indiretamente através de autores como Jennifer Cobb, com sua obra “Cybergrace”.

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quinta-feira, 7 de julho de 2016

Comunidade virtual e ambiência religiosa: a Igreja Pentecostal Deus é Amor no ciberespaço


Marcos Francisco Stahl

RESUMO

Esta dissertação investiga a proibição do uso da TV pela cúpula da Igreja Pentecostal Deus é Amor e, procura analisar o emprego que a IPDA faz de outras mídias eletrônicas para se comunicar com seus membros no ciberespaço. O problema que instigou a pesquisa foi indagar acerca das razões que levam a IPDA a proibir o uso da TV, mantendo-a distante dos fiéis e, ao mesmo tempo, liberar o uso da Internet, que junto com outras mídias são utilizadas como dispositivo de proselitismo e comunicação. A Adoção da hipótese da liberação da internet pela IPDA advém do fato do ciberespaço, diferente da TV, além de ser um grande depositário do simbólico, é também uma dimensão de renovação de formas de sociabilidade. Grande parte das conexões é feita pelos fiéis iniciam e alimentam vínculos pessoais fortalecendo os vínculos da membresia com a comunidade IPDA. Estabeleceu-se como corpus o portal da IPDA na internet (www.IPDA.com.br), seus templos, o marketing religioso e o “Regulamento Interno” - RI - da Igreja para a efetivação da análise da pesquisa. Para este estudo foi utilizado o método científico, baseado em fundamentação teórica. O referencial teórico tem como base conceitual o campo da Comunicação e as mídias eletrônicas religiosas para abordar a relação entre o pentecostalismo praticado pela IPDA, as mídias eletrônicas e o ciberespaço com enfoque nas reflexões desenvolvidas por Miklos (2012; 2013); Cunha (2007); Campos (2005); Assmann, (1986); Alencar (2005).

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terça-feira, 5 de julho de 2016

O senso do religioso na era digital: a nova ambiência da fé


Leomar Antônio Brustolin

RESUMO

O artigo aborda a experiência religiosa contemporânea influenciada pelas novas mídias. Parte da reflexão sobre as mudanças culturais que ocorreram nas últimas décadas e acabaram incidindo diretamente sobre o comportamento religioso. O novo cenário é abordado especialmente a partir da popularização da internet, que possibilitou uma nova ambiência religiosa. As novas formas de interatividade atingem a relação do humano com o divino. Não se trata apenas de novas linguagens, mas de diferentes percepções do sagrado acessível pelas redes. Dentre as inovações está a desintermediação, que dispensa mediadores na relação do humano com o transcendente. Prescinde-se de templos, lugares, tempos, líderes e normas que condicionem ou determinem a aproximação do fiel com a divindade. O estudo aborda especialmente as consequências dessa autonomia para a vivência comunitária da fé cristã, o sentido de pertença eclesial e os vínculos de solidariedade que sofrem mutações consideráveis. O fenômeno é avaliado a partir da Teologia do Concílio Vaticano II, procurando valorizar o diálogo da fé cristã com essa nova ambiência e, ao mesmo tempo, sustentando a singularidade do Cristianismo, enquanto religião do encontro, da proximidade e da misericórdia.

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quinta-feira, 30 de junho de 2016

Portal Canção Nova: Vínculos Comunicativos na Cibercultura


Glaucya Stela Candido Tavares

RESUMO

A pesquisa trata das relações comunicativas constituídas no Portal Canção Nova. Reflete acerca do fenômeno da cibercultura na sociedade atual e de alguns de seus desdobramentos referentes à possibilidade de criação de vínculos sociais por meio da internet, e mais especificamente por meio de um portal religioso.
O estudo tem como questões centrais: é possível estabelecer vínculos no ambiente da cibercultura? Caso seja possível, qual a natureza e o que favorece esses vínculos no Portal Canção Nova? Como se constitui a criação e a manutenção dos vínculos religiosos nas práticas de filiação às comunidades virtuais? 
O objetivo central foi investigar como se dá o estabelecimento de vínculos comunicativos, sua criação e manutenção na cibercultura, nas práticas de filiação às comunidades virtuais religiosas, especificamente na comunidade do portal Canção Nova. 
Trata-se de uma pesquisa qualitativa/descritiva que se baseou em estratégias de análises documental e de conteúdo. O referencial teórico da pesquisa utilizou como alicerces conceituais de “vínculos comunicativos” as obras dos professores Norval Baitello Júnior, Malena Segura Contrera, José Eugênio de Menezes e Boris Cyrulnik. No âmbito das ciências da comunicação, a pesquisa buscou alicerce em Edgar Morin, Harry Pross, Vilém Flusser, Bóris Cyrulnilk e Norval Baitello. O pensamento de Rubem Alves, Mircea Eliade, Zygmunt Bauman, Eugênio Trivinho e Jorge Miklos compõe do mesmo modo o quadro de referência para a investigação

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domingo, 26 de junho de 2016

"Viver a religião hoje é um fato público que passa pela mediação da mídia" - Entrevista com Antônio Fausto Neto (parte 2)

27/06/2016

Por Marco Túlio de Sousa
Doutorando em Comunicação (Unisinos)


Professor Dr. Antônio Fausto Neto na Unisinos
Na primeira parte da entrevista o professor Dr. Antônio Fausto Neto falou da sua pesquisa sobre as produções televisivas da igreja católica e de igrejas evangélicas pentecostais. De acordo com ele, apesar das doutrinas das igrejas diferirem, a inserção na mídia fazia com que se adaptassem a lógicas próprias do campo midiático, tornando suas performances similares. Além desta análise sobre a presença da religião na TV, integra o projeto “Processos Midiáticos e Construção de Novas Religiosidades: as dimensões discursivas” uma investigação a respeito da midiatização do Círio de Nazaré. É com este tema que continuamos a entrevista.

MRS: Eu queria que o senhor falasse do segundo ponto do projeto de pesquisa, que envolve o Círio de Nazaré. 

Fausto: Foram dois momentos de observação sobre duas procissões: uma há mais de 10 anos [2001] e outra em um momento mais recente [2013]. No primeiro estudo eu procurava mostrar como os campos sociais se tensionavam e, particularmente, como o campo religioso era tensionado pela presença de outros campos na organização e no funcionamento de certos rituais. Ou seja, como os campos da política, da economia, da segurança etc faziam convergir para o campo religioso um conjunto de cooperações a fim de que aquele acontecimento, não obstante a sua dominância religiosa, tivesse marcas de outros campos sociais que, por seu turno, faturavam essa colaboração do ponto de vista eleitoral e de propaganda/ publicidade de mídia etc. Ali se apresentava o início dessas articulações complexas de campos. Era um evento/ ritual católico, mas que, por ser um acontecimento que atravessava os veios da organização social em termos de devoção, de crença e de reputabilidade pública, para sua realização se oferecia o concurso de muitas práticas de campos sociais como uma forma destes campos também investirem a sua reputação simbólica na medida em que também participavam da sua realização. Ou seja, a romaria tinha um veio dominante católico/ religioso, mas não existiria se não fossem estes outros interesses que perpassavam a sua organização. Já no outro estudo, mais de 10 anos depois, eu mostrei uma mudança, uma complexificação dessas relações entre campos, mas, sobretudo, a importância desse acontecimento de rua que tomava uma feição, não só pela robustez da fé e da devoção dos fiéis, mas pela presença de redes sociais. O acontecimento era em uma ponta dinamizado pela internet e pelas redes sociais e levado adiante por esse movimento de um coletivo amplo, e não mais só pelos romeiros. Era dinamizado pelo twitter, pelo facebook. Na outra ponta repousava sobre sistemas midiáticos tradicionais e modernos o processo de anunciabilidade. Ou seja, ao longo da procissão instalavam-se na Av. Nazaré, em Belém, vários estúdios improvisados em apartamentos onde se alocavam várias celebridades como padre Fábio de Melo, padre Marcelo, Fafá de Belém etc. Todas estas celebridades coordenando um estúdio de rádio ou televisão transmitindo o evento, mas da perspectiva da lógica dos seus interesses e das mídias também. Isso ocorre a tal ponto que em certo momento a procissão passa em frente ao local onde está o padre Fábio de Melo e ele não só dá a bênção, que seria a benção aos fieis que tradicionalmente é dada pelo bispo local que esperava a procissão no final do cortejo, mas também faz uma selfie, como a dizer: “eu estive aqui e nessa função específica”, foto essa que naquele momento foi espalhada para urbi et orbi (para o mundo) mostrando sua performance. Fafá de Belém leva uma orquestra para tocar. Então, têm-se várias iniciativas que tratam de convergir com a natureza da festa, que também fazem derivar dela alguns produtos de ordem midiática, mas na perspectiva de uma economia de negócio, uma economia simbólica que não tem como central a procissão e o ator religioso nas suas fronteiras.

MRS: isso diz muito da entrada de uma lógica do espetáculo atravessando o ritual religioso. Ou seja, o ritual religioso permanece como ponto de articulação, mas permeado agora por outras lógicas...

Fausto: sem dúvida! Apesar de toda a sua riqueza, a lógica do espetáculo religioso é inibida pela presença de outras formas ritualísticas de espetáculo que comparecem não só nos seus representantes, mas também por seus dispositivos técnicos que dão a aquele acontecimento uma leiturabilidade totalmente distinta da que seria característica do evento, ou seja, da devoção da missa etc. Cada um tira partido, digamos assim. Isso tem se complexificado a tal ponto que as pessoas que moram naquela região alugam por uma semana as fachadas dos seus apartamentos a preços bem apreciados para serem transformados em estúdios de rádio e televisão, e, sobretudo, de celebridades.

MRS: Bom, o senhor acabou tocando neste ponto de forma indireta em alguns momentos da entrevista, mas, para sistematizar, eu gostaria que falasse sobre o que caracterizaria o relacionamento do campo religioso com o campo midiático na “sociedade dos meios” e na “sociedade em midiatização” (FAUSTO NETO, 2008), dois conceitos muito fortes na sua trajetória de pesquisa.

Fausto: Bom, grosso modo, é o seguinte: na “sociedade dos meios” os meios de comunicação, pela sua organização de seus modos de produção, da sua sintaxe, tematizavam e exerciam certo controle do acontecimento religioso, ou seja, o acontecimento religioso era subordinado a certas leis internas da programação de uma rádio ou de uma televisão. Exemplificando: houve um momento no passado em que a televisão transmitiu o Círio durante 8 horas porque havia uma simbiose do seu interesse e do interesse do campo religioso no sentido de reconhecer que aquele acontecimento era central na vida daquela população. Mas, a partir do momento em que interesses outros de programação nacional, regional atravessam a vida de uma rádio, de um canal de TV, a noção de tempo da procissão de oito, seis, cinco horas vira uma hora, meia hora restringindo-se à cobertura de aspectos centrais como a benção do bispo ou à entrada do cortejo na igreja etc. Esse momento caracteriza a centralidade do papel dos meios na organização de grandes eventos públicos. Evidentemente que esses grandes eventos públicos são atravessados por grandes cerimoniais de fundo, conforme bem disse o Daniel Dayan (1992, 1999) quando ele estuda acontecimentos que são televisionados, que, segundo ele, se baseiam em rituais profundos em termos de representação simbólica por parte da história da sociedade humana. Na medida em que a sociedade exacerba o funcionamento de tecnologias convertidas em meios e isso atravessa todas as práticas sociais, inclusive a religiosa, o campo institucional midiático não desaparece, mas deixa de ter uma centralidade porque o acontecimento está na mão de todo mundo, tanto das fontes produtoras religiosas, que passam a ter todos os dispositivos para produzí-lo, quanto dos atores sociais que têm internet, que têm celular, whatsapp, facebook, twitter. Então, sai-se de uma centralidade de transmissão midiática para uma pluriversidade de transmissões que se fazem de acordo com regimes, motivações e interesses de cada cidadão. Há, claro, um acontecimento “jurídico”, sociológico que se faz naquela semana e, especificamente, naquela procissão, mas o modo de “desenhar” sua existência sai da mão de peritos, de mediadores que tinham a responsabilidade central no modo de narrá-lo, de anunciá-lo, de comentá-lo e passa para as mãos de todos que podem com o acesso às tecnologias, construir as suas enunciações...

MRS: Podemos dizer que se sai de uma lógica transmissiva para se entrar em uma lógica de compartilhamento?

Fausto: de compartilhamento nesse sentido de que todos os agentes tem acesso a dispositivos midiáticos que antes estavam nas mãos apenas dos peritos da mídia. É isso que caracterizaria o acontecimento nessa sociedade em midiatização. Contudo, não se quer dizer que não haja rusgas muito importantes que apontam para tensionamentos, recuos, resistências a esses fenômenos. Existem tensões nesses acontecimentos, modos de redesenhar o ritual religioso strictu sensu no sentido de fazê-lo circular à deriva dessas intervenções midiáticas mais contemporâneas. Mas para identificá-los seriam necessários muitos processos observacionais para capturar os “n” Círios que se realizam concomitantemente àquela grande procissão, inclusive no interior dela. Há muitas manifestações que apontam para outros processos de produção de sentido enquanto marcas de fraturas. Recordo-me no Círio de 2013 duas manifestações: 1) a tradicional de rua, já incorporada às redes sociais, e (2) a ela se agregavam dispositivos de captação da procissão que já não se restringiam mais apenas naquele sistema de rádios, tvs etc e que se notabilizavam pela presença das celebridades que faziam surgir um co-acontecimento. Havia um acontecimento que seguia um ritual oficial e microacontecimentos que se desencadeavam a medida que a procissão passava por esses ambientes, onde ocorriam esses enlaces momentâneos. Ou seja, nichos de produção periféricos capturavam-na segundo suas lógicas específicas. Isso reflete um nível de intervenção de um dispositivo em produção paralelo ou consentâneo se apropriando da procissão em si. Exemplificando: a procissão se faz por um percurso que vai do cais até a catedral. Por aí passam 2 milhões de fiéis. Ao longo desse trajeto instalam-se gabinetes em apartamentos e portarias ocupados pelas celebridades. E as pessoas param ali, reverenciam esses personagens, toca-se música, dá-se uma bênção. Isso gera a irritação do bispo que esperava a procissão chegar enquanto o padre Fábio de Melo, como eu já mencionei, dava outra bênção e tirava uma selfie. Essas intervenções são espécies de “fraturas em produção” porque são feitas por personalidades/ operadores que fazem o ritual circular em outro destino interpretativo, mas que estão incorporados de alguma forma à produção oficial do acontecimento. Por isso digo que é uma “fratura em produção”. Observei também outra fratura distinta da anterior. No centro da procissão há uma corda (o cisal) que 30 mil promisseiros seguram e protegem durante o trajeto e que seria dividida entre eles na igreja, segundo acordo feito previamente com as instâncias oficiais. Desta vez eles se antecipam, cortam a corda e se apropriam de seus pedaços transformando-os em relíquias. Isso do ponto de vista da antropologia simbólica é uma espécie de ruptura com o ritual sobre o qual funciona esta manifestação do ponto de vista da sua lógica de produção e ao mesmo tempo um “redesenho” do seu processo de significação. É preciso que haja uma ruptura para que ele seja ressimbolizado. Os indivíduos redesenham esta organização dando a ela outra significação segundo um ato que passa por eles mesmos, por uma ação técnico-simbólica dos atores sociais.

MRS: um ato que acontecia à revelia das prescrições institucionais...

Fausto: sim! A previsão era de que este corte aconteceria apenas no final quando a procissão chegasse até o bispo, e a corda, então, consagrada pelo seu ritual de origem, fosse dividida entre os fiéis. Esta antecipação por parte dos promisseiros foi muito mal vista, muito mal compreendida. Ela foi lida como um desrespeito, como uma afronta porque a lógica procissão foi traçada por um postulado de racionalidade definido pelos campos sociais que ofertavam que este acontecimento. Então, nesta atitude os atores sociais rompem com o ritual e dão outra significação. Isso está detalhado no texto “Círio de Nazaré: celebrações, divergências e rupturas” (FAUSTO NETO, 2013).

* Para ler a primeira parte da entrevista clique <<<aqui>>>.

Textos Citados nas partes 1 e 2 da entrevista

ASSMANN, Hugo. A Igreja Eletrônica e seu impacto na América Latina. Petrópolis (RJ): Vozes, 1986.

ECO, Umberto. Viagem na Irrealidade Cotidiana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

DAYAN, Daniel & KATZ, Elihu. A história em directo. Os acontecimentos mediáticos na televisão. Coimbra: Minerva, 1999.

DAYAN, Daniel e KATZ, Elihu. Media events: the live broadcasting of history. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1992.

FAUSTO NETO, Antônio. Religião do contato: estratégias dos novos "templos midiáticos". In: Emquestão –Revista da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS. Porto Alegre, RS: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Vol. 2, n 1(jan./jun 2003), p. 163-182.

_____, Antônio. Fragmentos de uma analítica da midiatização. In: Revista Matrizes, nº  2, Abril, 2008 –pp 89-105

_____, Antonio. Círio de Nazaré: celebrações, divergências e rupturas. In: Netília Silva dos Anjos Seixas; Alda Cristina Costa; Luciana Miranda Costa. (Org.). Comunicação: visualidades e diversidades na Amazônia. 1ed.Belém: FADESP, 2013, v. 1, p. 27-50.

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 18º ed. Petrópolis: Vozes, 2011.

HARTMANN, Attilio Ignacio. Religiosidade e mídia eletrônica: a mediação sócio-cultural-religiosa e a produção de sentido na recepção de tv. São Paulo, 2000. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) – ECA-USP.

Sobre o autor 
Antônio Fausto Neto é pós-doutor em Comunicação pela UFRJ, doutor em Comunicação pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS) da França, mestre em Comunicação pela Universidade Nacional de Brasília (UNB) e graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Atualmente é professor titular do programa de pós-graduação em Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Interessa-se por temas relacionados a Jornalismo, Discurso, Noticiabilidade, Estratégias Midiáticas e Midiatização, tendo também já estudado objetos que envolvem religião, discurso e mídia, especialmente no âmbito televisivo.

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domingo, 15 de maio de 2016

Religiosidades no (do) ciberespaço


Eduardo Meinberg de Albuquerque Maranhão Filho

INFORMAÇÕES SOBRE O TEXTO

O texto trata de questões envolvendo religião e mídias digitais a partir de uma análise sobre a Bola de Neve Church. Parte das reflexões desenvolvidas foram publicadas no último capítulo do livro "A grande onda vai te pegar : marketing, espetáculo e ciberespaço na Bola de Neve Church" de autoria do mesmo autor.

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quarta-feira, 11 de maio de 2016

Os contratos de leitura e a construção de vínculos de líderes evangélicos com seus fiéis na internet


Francieli Jordão Fantoni, Viviane Borelli

RESUMO

A Internet representa um marco importante para caracterizar a intensificação dos processos de midiatização das práticas religiosas evangélicas. A web, convertida em meio, agencia um novo discurso religioso para seus públicos. Neste sentido, o artigo analisa o caráter singular das estratégias que são acionadas pelos líderes das igrejas nesta ambiência, como forma de estabelecimento de vínculos por meio de contratos de leitura específicos que tomam forma por meio de distintos dispositivos midiáticos. Para isso, são analisados os portais das Igrejas Assembleia de Deus, Internacional da Graça de Deus e Universal do Reino de Deus. Observa-se que a autoridade religiosa é um fator significante para a constituição de uma imagem institucional e para a geração de simbologias entre seus fiéis

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